Autoria: Patrícia Marques (LEFT)

Embarcar numa jornada carrega consigo um êxtase próprio de novato que, como é sabido, se dissipa frequentemente com o prolongar da experiência, seja para a procura de atividades ocupacionais extra ou transformando-se na procura de a terminar. O mesmo acontece com a nossa passagem pelo ensino superior e, em particular, comigo mesma, que me distraio com a escrita do que se segue – o que se segue neste artigo é o que se segue após o Técnico.

Desconheço a data em que se tornou mandamento que a passagem pelo Técnico equivalesse a garantia de emprego (seja dito, de qualidade). Ora, esta ideia está já interiorizada assim que nos candidatamos e, de facto, não é mero boato – um inquérito do OEIST aos diplomados de 2º ciclo que concluíram o curso em 2018 revela que 95,4% estão a trabalhar.[1] Gostaremos de imaginar que os restantes sejam stay-at-home parents, tenham seguido formação adicional não formal ou embarcado em projetos de outro género – tudo o imaginável desde que não se cruze com vidas marcadas por inatividade, privações económicas e incerteza de um futuro digno. Não que tais experiências não sejam reais, mas, como sabemos, seria incomodativo para o retrato esplendoroso desta Instituição relatá-las.

Uma parte dos mestres saídos do IST realiza um estágio profissional remunerado e a grande maioria (77,9%) executa trabalho a conta de outrem – uma tendência que tem vindo a aumentar desde 2013, ano em que “representavam 57,7% do total de diplomados inquiridos”. Entre as áreas de ação, destaca-se a informática, projeto, produção, I&D, se bem que predomina o papão da consultoria – uma atividade incógnita e quase esotérica para muitos estudantes recém-chegados. Gradualmente, vamos desconstruindo e descobrindo que tipo de funções, de facto, se exercem em empresas e consultoras, seja mediante relatos de alumni ou experiências ao longo da faculdade. Experiências estas motivadas pela ânsia de agarrar oportunidades ou apenas de rechear o CV, em que alguns de nós se submetem a “preparações” para o mercado de trabalho, seja com projetos de outsourcing ou estágios precários, como se estas não fossem já um trabalho digno de direitos. Embora raros, há aqueles que se metamorfoseiam em empreendedores, criadores de ideias, líderes de empresas e start-ups. Rondam apenas os 2,4% os diplomados a trabalhar por conta própria, embora, pelo teor dos eventos do campus e da capital em si, possa soar a uma via mais predominante e atingível.

Crença no bem maior do desenvolvimento científico, gosto pessoal ou quiçá a posição aclamada que os distingue dos demais – serão essencialmente estes os fatores de estímulo dos investigadores, embora certamente não os salários e condições laborais. Estes figuram uma porção de destacada relevância no panorama da comunidade do Instituto Superior Técnico, tanto em centros e institutos como na docência, papel que começam por assumir, muitas vezes, enquanto monitores. É precisamente aqui que se cruza a investigação e o ensino – andam de mãos dadas na nossa escola, um entrelaço que coloca os estudantes em contacto com a ciência de ponta ao mesmo tempo que compele aqueles que adquirem uma bolsa a ensinar, quase independentemente do seu desejo ou atributos para tal. Quanto a possibilidades de carreira académica, podemos referir bolsas de doutoramento (BD), de investigação (BI) sem obtenção de grau académico e até de estágio em organizações científicas e tecnológicas internacionais (BEST).[2]

Sendo estas as carreiras profissionais da maioria dos que completam o curso, não nos esqueçamos que podemos ser B Fachadas e Profjams desta vida. Nesta que é praticamente uma bolha de engenharia, ciência, investigação e arquitetura, com escassos ou mínimos incentivos ao enriquecimento cultural e artístico, são muitos os escapistas que procuram ocupar os seus tempos livres (ou, digamos, geri-los) a aprofundar conhecimento ou mestria nas artes e humanidades, iniciando-se numa banda ou juventude, por exemplo. Raros são aqueles que trocam de vias e perseguem a tempo inteiro uma área oposta da dos seus estudos, mas existem – não falaríamos nós de Duarte Pacheco ou Guterres.

Qualquer que seja o rumo que seguimos, destinado ou não (deixemos tal debate para uma próxima), encaremos a saída do Técnico e a fase de graduação com uma perspetiva alargada do que crescemos e do quanto queremos crescer, informados e alertas para a panóplia de vidas passíveis de serem experienciadas e cientes das vias ainda por construir.


Referências:

[1] – Relatório do Observatório de Empregabilidade do Instituto Superior Técnico – “XIII Relatório Situação Profissional dos Diplomados do IST – 2020” Relatórios | Observatório de Empregabilidade • OEISTe-comunicacoes/

[2] – Regulamento n.º 234/2012, de 25 de junho – “Artigo 10.º – Bolsas de estágio em organizações científicas e tecnológicas internacionais” https://dre.pt/dre/detalhe/regulamento/234-2012-3451945

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