Autoria: Diogo Fernandes (LEMat), Maria Paixão (LEBiol) e Rodrigo Machado (LEFT)
O recente corte no financiamento da FCT trouxe o assunto do futuro da investigação científica em Portugal de volta ao centro da discussão. Aproveitando este facto, o Diferencial quis tentar perceber o atual estado da investigação científica no IST e quais são as perspetivas para o futuro.
Após as duas entrevistas publicadas anteriormente pelo Diferencial, onde falamos com a professora Ermelinda Maçoas e com a Dra. Dora Sousa, hoje divulgamos a última das três entrevistas sobre o estado da investigação científica em Portugal, onde mostramos o testemunho de Lucas Marcelino, aluno de Doutoramento de Engenharia de Materiais e investigador no IST, onde se dedica ao desenvolvimento de biopolímeros para a área da agricultura.

Fonte: CERENA
Questão: O que é que o fez tirar um doutoramento e seguir o ramo da investigação?
Resposta: O que me fez querer tirar um doutoramento foi o facto de gostar de fazer investigação e de ter esse bichinho ao longo de todo o curso. Essa vontade aumentou durante a realização da minha tese de mestrado, pois tive a oportunidade de desenvolver novos produtos e estar na frente do desenvolvimento de novas tecnologias, algo que me deu bastante gozo.
Questão: Quais são os prós e contras de trabalhar neste meio?
Resposta: Os prós são que podemos fazer algo que gostamos, cujo resultado final muitas das vezes tem um impacto positivo na nossa sociedade. Também é possível, por vezes, trabalhar com a indústria, o que faz com que as tecnologias e produtos desenvolvidos não fiquem apenas na escala laboratorial. Os contras estão relacionados com a instabilidade deste meio. A sensação de que não existe estabilidade na tua vida profissional prolonga-se para além da conclusão do doutoramento e continua quando te tornas investigador.
Questão: Há uma diferença de aproximadamente 800 euros no salário mensal da maioria dos contratos para investigadores e nas bolsas de doutoramento em comparação com o que é oferecido noutros países. Equacionou fazer o seu doutoramento fora do país? O que é que o levou a ficar? Planeia ficar no país após o fim do doutoramento?
Resposta: Sim, é sempre algo em que se pensa, porque muitas das vezes quando se olha para a investigação noutros países, observa-se a diferença de condições relativamente a Portugal e encontram-se aspectos que realmente são muito valorizados no meio académico. O que me levou a ficar no IST foi o tema do doutoramento, que é bastante interessante e que me dá satisfação de trabalhar nele, bem como as pessoas com quem trabalho, que desde o princípio me apoiaram bastante. Neste momento estou a pensar ficar em Portugal, mas no futuro talvez queira ter uma experiência internacional para melhorar o currículo mas logo se vê.
Questão: Em alguns inquéritos feitos à comunidade de investigadores científicos em Portugal, 41% dos inquiridos reportaram ansiedade moderada ou severa e 39% depressão moderada ou severa, o que representa níveis seis vezes mais altos que na população em geral. Noutro inquérito, 70% dos inquiridos afirmaram sentir-se sob stress no dia a dia. Na sua opinião, quais os fatores que contribuem para estes números?
Resposta: Há vários fatores que contribuem para estes números. Em primeiro lugar, gera-se muita ansiedade em torno das nossas finanças pessoais, em segundo lugar, no nosso trabalho muitas vezes somos um pouco pressionados pelos orientadores e empresas, que pedem resultados com prazos que por vezes são impossíveis de serem cumpridos. Para além disto tudo, é necessário conciliar o nosso trabalho com as disciplinas que temos de fazer e as aulas que temos de lecionar, o que nem sempre é fácil.
Com estes testemunhos, foi possível apresentar três perspetivas diferentes deste universo, muitas vezes desconhecido pela maioria dos alunos do Instituto Superior Técnico. Ficou claro que a investigação em Portugal precisa urgentemente de uma reestruturação, de modo a que seja finalmente possível aos investigadores ter uma carreira digna, que permita dedicarem-se à sua vocação sem terem de abdicar de uma vida estável. Por outro lado, numa altura em que se está a tentar aumentar a taxa de inovação na investigação científica, é fulcral dar alguma estabilidade a este meio e proporcionar os recursos necessários para que os investigadores tenham espaço para cometer riscos e para falhar. Atualmente, a feroz competição por financiamento limita a I&D produzida em Portugal a temas mainstream e de baixo risco. Como foi defendido pelos nossos entrevistados, a qualidade dos recursos humanos à nossa disposição é inegável e, com uma gestão adequada, Portugal, ou até mesmo o IST, podem no futuro estar na vanguarda da investigação científica a nível Europeu.