Descodificar a Vida: A Genética em debate na Universidade de Lisboa

Autoria: Tomás Almeida (LEMec)

No passado dia 4 de novembro decorreu, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, o evento “Genética: Isto não é assim tão simples”, que contou com a presença do Biólogo e Professor Alfonso Martínez Arias. Promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), em parceria com o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM) e com o apoio da rede SAÚDE da Universidade de Lisboa, este evento ambicionou não só ampliar os horizontes do conhecimento científico na área da Biologia Celular, como também revelar um pouco do quotidiano de quem se encontra na linha da frente da inovação científica. A organização do evento afirma que o intuito é fomentar o pioneirismo, a divulgação, a inspiração e a colaboração nas áreas de investigação científica.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos [1], criada em 2009 por Alexandre Soares dos Santos e pela sua família, é uma organização sem fins lucrativos. A sua missão é promover e aprofundar o conhecimento da realidade portuguesa, através de barómetros e sondagens, procurando desse modo contribuir para o desenvolvimento da sociedade, o reforço dos direitos dos cidadãos e a melhoria das instituições públicas. O Gulbenkian Institute for Molecular Medicine [2], fundado em 2023, é uma fundação privada de investigação portuguesa pioneira, com uma visão ambiciosa da exploração científica fundamental e do seu profundo impacto na saúde e no bem-estar globais. Esta dedica-se a desvendar os mistérios fundamentais da vida e tem como objetivo estar na vanguarda da investigação transdisciplinar, reforçando as capacidades nacionais de investigação e promovendo sinergias para enfrentar desafios científicos complexos.

O podcast “Isto não é assim tão simples” [3], impulsionado pela FFMS em parceria com a GIMM, coloca em debate temas como Jornalismo de Investigação, Economia, Física, entre outros, e conta com a presença de grandes nomes, dos quais se destacam Mariana Van Zeller e Ricardo Reis, num novo programa dedicado a entrevistas com personalidades internacionais ligadas às mais variadas áreas da esfera pública. Estas entrevistas, conduzidas pelo jornalista Pedro Pinto, pretendem simplificar e apoiar a desmistificação de alguns dos temas mais importantes da atualidade.

Após um total de 59 entrevistas incidentes nas mais variadas áreas de estudo, a FFMS promoveu uma edição especial ao vivo, que decorreu no dia 4 de novembro pelas 18h30 no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa. O convidado Alfonso Martínez Arias, biólogo e professor na Universitat Pompeu Fabra, em Barcelona, debruçou-se sobre uma temática pioneira da Biologia – a dicotomia entre genes e células. O evento ficou marcado pela presença de diversas figuras ilustres que aproveitaram o final de tarde para ficar a conhecer os projetos e estudos levados a cabo pelo biólogo. Este revelou, inteiramente em inglês, a sua visão acerca do assunto num tom suave e agradável, permitindo um envolvimento direto do público, que aderiu em peso a esta iniciativa. Referiu-se à sua investigação, que revela a essência de cada um de nós, como “uma sinfonia de células de uma complexidade emocionante que dá forma ao nosso corpo”.

Ao longo da entrevista, Alfonso Martínez Arias ilustrou de um modo simplista, mas conciso, a sua abordagem relativamente ao papel dos genes na vanguarda da Biologia Celular, surgindo com uma nova visão acerca da importância dada aos genes na definição da vida, uma vez que considera que a resposta se encontra verdadeiramente na célula, em oposição ao que era pensado, rompendo com preconceitos tradicionais. Este evento permitiu ainda evidenciar o modo como o convidado aborda a importância da sua intervenção na ciência e os impactos que esta causa no mundo, já que a ideia de gene como local onde se encontra codificada toda a informação biológica está amplamente difundida pelas mais variadas áreas de estudo e é vista como um dogma societal, o que segundo a sua abordagem não corresponde inteiramente à verdade. Alfonso Martínez Arias aproveitou ainda para reconhecer o papel crucial que a célula já desempenha nos dias de hoje na investigação científica, bem como o seu impacto futuro na adoção de práticas medicinais pioneiras: “Através de células, hoje já podemos replicar um intestino em laboratório. Vamos criar um novo tipo de medicina: a celular”.

“A Célula, Grande Construtora da Vida” | Fotografia: Tomás Almeida

Posteriormente, este evento contou também com um programa dedicado à apresentação do seu mais recente livro “A Célula, Grande Construtora da Vida”, editado pela Temas e Debates. “O que define quem somos? Durante décadas a resposta pareceu óbvia: os nossos genes, a matriz da vida. Nesta obra, o prestigiado biólogo Alfonso Martínez Arias rompe com a tradição e apresenta um argumento revolucionário: o que nos define são as nossas células”. Este é o mote para a obra que procura responder às grandes questões do nosso século acerca da Biologia de investigação celular. A obra encontra-se amplamente difundida a nível internacional e revela uma visão inovadora e revolucionária sobre o papel da unidade básica da vida, a célula, no nosso desenvolvimento biológico. Conta já com inúmeras críticas, desde The New York Times, Philip Ball, escritor e editor da revista Nature, Azra Raza, médica e professora na Universidade de Columbia e da revista Science, que o evoca como “Provocador e necessário”. Em jeito de encerramento, o tempo foi também reservado para uma sessão de autógrafos do autor, de modo a contactar diretamente com o público português, que aderiu fortemente a esta iniciativa da FFMS.

Referências:

[1] Fundação Francisco Manuel dos Santos: publicações | LinkedIn

[2] GIMM – Gulbenkian Institute for Molecular Medicine

[3] Isto não é assim tão simples | FFMS

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