A associação da Inteligência Artificial à ficção científica é um paradigma corrente na sociedade. O artigo “Ficção ou Realidade?” pretende desmistificar a relação entre ambos os conceitos, por forma a expor o cenário atual desta área de estudo científico.

Autoria: João Valério, MECD

Atualmente, a Inteligência Artificial (AI) é um dos campos científicos com maior margem de progressão no futuro da indústria. Eric Brynjolfsson e Andrew McAfee descrevem-na como a tecnologia de âmbito geral mais importante da nossa era.

O seu desenvolvimento, ao  proporcionar uma área científica com bastante espaço para crescimento, originou um forte mediatismo, por vezes desmedido, que cativou a atenção não só das mentes e empresas mais brilhantes, mas também do cidadão comum. No entanto, tal como em qualquer tema mediático surge paralelamente a desinformação, com efeitos negativos na educação da sociedade e, consequentemente, uma parte desta não compreende completamente o conceito inerente à AI. Como resultado desta desinformação surge um pensamento erróneo que é necessário refutar. 

Efetivamente, existem riscos associados à AI, tal como a qualquer outro plano científico, contudo, a associação com a ficção científica é a comparação mais frequente e, por norma, ilógica. Por forma a desconstruir pensamentos desfasados da realidade, apresento três argumentos sustentados

  1. Nos tipos de AI.
  2. Na Heurística da Disponibilidade.
  3. Na Interdependência Humana.

No primeiro ponto é necessário compreender que a AI está dividida, de um modo geral, em duas áreas de estudo: Artificial Narrow Intelligence (ANI) e Artificial General Intelligence (AGI). A ANI utiliza técnicas de AI por forma a desempenhar tarefas específicas com precisão elevada. Servem de exemplo os Smart Speakers, como a Alexa e a Siri. Contudo, um software para este efeito não apresenta a capacidade para exercer outra tarefa de forma eficaz. Por outro lado, a AGI pretende criar agentes inteligentes com a competência para desempenhar todas as funções ao nível humano, ou até excedê-lo (Superintelligence). Neste caso, o agente inteligente teria, para além da competência exibida pelos Smart Speakers, a capacidade para agir como um humano nas restantes atividades diárias, como por exemplo na condução autónoma. 

Todavia, é importante assinalar que, apesar do otimismo de alguns cientistas, a ANI tem registado, de forma absoluta, o maior desenvolvimento e aplicação na indústria. A discrepância de progressos entre a ANI e a AGI tem origem na complexidade da criação de um agente inteligente, tendo em conta que algumas das tarefas, bastante comuns para um humano, não são exequíveis com base em AI. Para além do exposto, grande parte das ações humanas estão, inevitavelmente, associadas à consciência, algo que, atualmente, não apresenta uma definição consensual para todos os ramos da ciência e, portanto, a possibilidade de replicação da mesma é ainda questionável. Para complementar o primeiro raciocínio, dependendo do propósito final as técnicas de AI a aplicar diferem, não sendo viável, atualmente, idealizar um algoritmo suficientemente generalista e com a mestria necessária para satisfazer todas as necessidades ao nível humano.

A segunda premissa aborda a perceção da sociedade relativamente ao objeto de discussão com base na Heurística da Disponibilidade, um tema introduzido pela Psicologia. Simplificadamente, este conceito descreve a forma como as pessoas, quando expostas a nova informação, avaliam a sua plausibilidade baseando-se em experiências passadas. Assim, no que diz respeito à AGI é aceitável inferir que um cidadão comum nunca tenha estabelecido contacto com um agente inteligente deste género, enquanto, relativamente à ANI, apesar de o contacto já ter sido estabelecido, este não teve consciência da sua presença. Face ao descrito, depreende-se que, para além da singularização das diferentes noções (AGI e ANI), como a ficção científica foi a única informação de grande peso experienciada pela sociedade, a AI é, quase integralmente, associada pelo cidadão comum a fontes de informação deste carácter e, consequentemente, grande parte não reconhece a sua utilidade e definição. Torna-se indispensável relembrar que os filmes desta natureza têm origem na imaginação. Logo, associar a AI com a ficção científica, por agora, é um pensamento falacioso sem fundamentos sustentáveis.

A última análise refere-se à interdependência humana, uma condição inerente à sociedade atual, pois, tal como refere Stephen Covey, “a vida é, por natureza, totalmente interdependente. (…) Temos de nos relacionar diariamente com o mundo interdependente, pois fazemos parte dele.”. Assim, sendo o papel da AI cada vez mais vigorante no nosso mundo, o caminho para esta deverá centrar-se na interdependência homem-máquina, por forma a obter os melhores resultados possíveis em diversas frentes. Dito de outro modo, esta evolução não pretende criar uma guerra de inteligência, como demonstram os filmes, mas sim uma possível relação interdependente com altos benefícios sociais.

Por fim, de acordo com os argumentos referidos, depreende-se que, para além de atualmente a distância entre a Inteligência Artificial e a ficção científica ser significativa, o percurso evolutivo mais benéfico baseia-se num estado de interdependência entre o homem e a máquina, por forma a extrair ao máximo as vantagens do seu potencial conjunto.

Bibliografia:

  • BRYNJOLFSSON, Erik; MCAFEE, Andrew (2017) – The Business of Artificial Intelligence. Massachusetts: Harvard Business Review.
  • OLIVEIRA, Arlindo (2019) – Inteligência artificial. 1ª ed. Lisboa: ENSAIOS DA FUNDAÇÃO.
  • OLIVEIRA, Arlindo (2019) – Mentes Digitais: A Ciência Redefinindo a Humanidade. 3ª ed. Lisboa: IST PRESS.
  • DOMINGOS, Pedro (2019) – A Revolução do Algoritmo Mestre. 9ª ed. Lisboa: MANUSCRITO.
  • COVEY, Stephen (2021) – Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. 25ª ed. Lisboa: Gradiva.

Leave a Reply