Olhei pela janela da minha casa, numa aldeia do Oeste, e até onde a minha vista alcançava apenas vi uma só bandeira do nosso Portugal. Abri a gaveta do meu guarda-roupa e logo encontrei uma camisola com a conhecida Stars and Stripes americana e outra com a Union Jack britânica. Questionei-me logo acerca do paradeiro do orgulho português.

Autoria: Carolina Pereira, LEIC (IST)

Dificilmente se fala do amor aos ícones portugueses sem passar por termos como “nacionalismo” e “patriotismo”. Logo aqui surge a necessidade de distinguir estes dois termos, algo que pode ajudar a compreender algumas hipóteses para esta timidez no amor à bandeira. Embora estas duas palavras surjam por vezes como sinónimas, o patriotismo – manifestação de amor, dedicação e orgulho pela pátria[1], é menos rígido do que o nacionalismo. A necessidade de entender a nação como uma entidade, juntamente com a motivação para levar esse território a uma posição de vantagem e visibilidade política, social e económica, compõem uma definição[2] redutora daquilo que o nacionalismo pode ser, na qual cabe o patriotismo.

De entre os vários episódios na história de Portugal em que o nacionalismo se fez sentir mais profundamente, destaca-se o período entre 1933 e 1974, quando o simbolismo da bandeira e do hino foram tingidos pelas ideologias do Estado Novo. Frequentemente, estes ícones são absorvidos por regimes extremistas, podendo posteriormente haver uma tentativa de “lavagem” da imagem, como aconteceu, por exemplo, com a Ponte Sobre o Tejo, inaugurada em 1966 com o nome “Ponte Salazar” e renomeada “Ponte 25 de Abril” após a Revolução dos Cravos[3].

Torna-se então necessário compreender o que realmente se esconde por trás da razão de alguém se autodenominar “patriota” ou “nacionalista”. É a proximidade entre o nacionalismo e a ideia de soberania da nação que faz resvalar o patriotismo e o “amor à bandeira” para um lugar onde a xenofobia, o racismo e o fanatismo reinam, dando origem a uma versão pouco saudável do nacionalismo. A aversão a esta mentalidade e aos regimes extremistas, sentimentos presentes principalmente nas gerações mais novas, traz consigo um afastamento dos símbolos nacionais que têm dividido o povo mais do que o têm aproximado. Não se veste a bandeira nem se canta “A Portuguesa” a não ser que haja um jogo de futebol, ou se Portugal se destacar nalgum evento de importância internacional. Porquê? Talvez porque nessas ocasiões há uma justificação para trazer a Esfera Armilar toscamente pintada no rosto, justificação essa abstraída da história atribulada do país.

Uma outra plausível explicação para a diluição deste orgulho nacional terá a ver com a perda da noção de unicidade nacional subjacente ao nacionalismo, consequência da descolonização e dissolução do Império Português e, posteriormente, da entrada de Portugal na União Europeia. Por um lado, o orgulho desapareceu com o Império Português e por outro, o sentimento de pertença voltou-se para uma comunidade maior e mais aberta – a Europa. Aqui encontra-se uma justificação para o nacionalismo encontrado nos Estados Unidos da América, por exemplo. Os EUA são a sua própria comunidade e o facto de se terem tornado numa superpotência mundial não passa despercebido ao coração de um cidadão americano patriota.

A imagem que a cultura portuguesa tem vindo a ganhar também poderá ser uma justificação, embora este argumento seja mais subjetivo e tenha menor conotação histórica do que os anteriores. Não falo da cultura popular como o Fado, as marchas populares ou tantas outras tradições que dão identidade a cada região. Falo da “cultura pimba” rebaixada ao máximo. Por muito que os arraiais, a matança do porco e o cheiro a sardinhas assadas faça parte de nós, cada vez mais esta cultura é associada a uma identificação passageira e não a algo que se traga sempre connosco como símbolo de onde viemos. É uma realidade que a maioria dos portugueses que ouve música pimba o faz por piada. O mesmo acontece com outras tradições. É por piada que se participa, não porque realmente nos identificamos com a imagem do Zé Povinho exportada para o resto do mundo. Essa vergonha de vestir a imagem “pimba” do povo português leva a deixar os símbolos nacionais à beira do prato. Este é um evento demonstrado principalmente por parte das gerações mais jovens, como me foi possível observar e constatar numa das vezes em que refletia sobre o assunto.

Não pude deixar de reparar na semelhança entre a forma como, atualmente, os jovens vivem a identidade nacional e a causa descrita para a dissipação do nacionalismo que apresentei anteriormente. A pertença a uma comunidade aberta e abrangente, seja ela a Europa, o próprio Planeta ou até mesmo uma subcultura, sobrepõe-se frequentemente à Bandeira.  Mais facilmente nos identificamos com pequenos grupos que partilham connosco um mesmo interesse ou maneira de pensar, ostentando isso numa camisola por exemplo, do que vestimos essa mesma camisola com o imaginário nacional português. Isto leva a crer que, atualmente, a nacionalidade é apenas uma pequena parte da nossa identidade, com maior ou menor importância dependendo de quanto cada um se revê no espírito português.

Ao mesmo tempo, a globalização tem um papel assustadoramente grande no que toca a empurrar para segundo plano a apreciação daquilo que é nosso. Sonha-se em viver em determinado país mais desenvolvido, decora-se a casa com ícones estrangeiros, chega-se mesmo a preferir uma fotografia da Golden Gate Bridge à nossa Ponte 25 de Abril. Será que gostamos mais da combinação vermelho-azul-branco do que do vermelho-amarelo-verde português? Será uma questão de estética, de preferência pela arquitetura estrangeira, uma romantização da importação? Ou não passa de uma formatação sorrateira das nossas mentes por forma a normalizar a crescente presença destas potências mundiais nas nossas vidas? Talvez um misto das três. Portugal tem tudo para apanhar a onda da globalização e despertar nos outros países a mesma curiosidade cultural que estes têm despertado em nós, embora esta faceta internacional traga associada uma máscara que esconde o que de negativo existe em cada país, não deixando que a verdadeira realidade seja vista por todos.

Em última análise, a influência de um país estrangeiro em Portugal (ou qualquer outro país) deixa marcas culturais. Algumas tradições são abolidas, enquanto outras são absorvidas ou modificadas. É uma questão que gera debates polémicos sobre “certo” e “errado” e quando é que uma idiossincrasia cultural de um país ultrapassa os limites do eticamente correto. Simultaneamente, esta constante influência ao longo da história deixa dúvidas relativas ao quão portuguesa é determinada parte da nossa cultura como, por exemplo, a gastronomia. Podemos sentir-nos orgulhosos da nossa cozinha, mas encaixar este orgulho no patriotismo pode ser uma rasteira. Por mais tradicional que seja um certo prato, não se pode descartar a ideia de que até à consolidação dessa receita, foram existindo influências de outros locais e outras gastronomias. Se estendermos este exemplo, torna-se claro que é praticamente impossível ser-se puramente nacionalista ou patriota quando o atual Portugal não é mais do que o somatório de toda a sua história, incluindo os eventos que antecedem a sua própria fundação. Não se pretende com isto dizer que nada é verdadeiramente português. A conclusão é que muito daquilo que atualmente atribuímos a “ser português” é fruto da absorção. Nesta linha de raciocínio, torna-se forçoso que um verdadeiro patriota e um verdadeiro nacionalista conheçam perfeitamente a verdadeira história do nosso país, com todos os altos e baixos.

Ainda assim, pode com simplicidade erguer-se a Bandeira de Portugal sem pensar demasiado sobre o significado ou a origem de determinado símbolo. Há espaço para simplesmente dizer, por palavras ou não, “tenho orgulho em ser português”. Basta existir o espírito e a vontade de não deixar a nossa cultura dissolver-se na imensidão do global.

Seja por abandono do nacionalismo, por vergonha de ser português fora do quadro do futebol ou pelo simples cair da nacionalidade da lista de elementos que mais contribuem para a caracterização da nossa identidade, é certo que o patriotismo português já não tem a força que tinha. A meu ver, independentemente de levarmos ou não os símbolos portugueses ao peito, sabermos valorizar a nossa cultura e mostrar ao mundo um Portugal transversal desde o tradicional e triste Fado à excelência da investigação de ponta e, acima de tudo, por uma vontade de explorar e sonhar mais alto do que a crise nos permite é, mais que tudo, mostrar e ser-se português.

Referências:

 [1] patriotismo in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-12-18 14:47:26]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/patriotismo

[2] Nacionalismo in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-12-18 14:58:59]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/$nacionalismo

[3] http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/18933276 Acedido pela última vez em: 18 de dezembro de 2020

[4] Manuel Braga da Cruz, Nacionalismo e Patriotismo na Sociedade Portuguesa Actual – Alguns Resultados de Um Inquérito. Disponível na Internet: http://hdl.handle.net/10400.26/3012 Acedido pela última vez em: 18 de dezembro de 2020

Agradeço a todos aqueles que colaboraram no texto e que deram opinião sobre o tema.

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