Já deves ter ouvido falar da hustle culture: esta é a cultura em que vivemos, diferente na sua essência daquela vivida pelos nossos avós. Uma cultura que perpetua a ideia de que o sucesso é apenas alcançado e fundamentalmente definido pelo desempenho profissional, que deve ser exercido à máxima capacidade e procurado incansavelmente.

Autoria: Marta Oliveira, MEBiom (IST)


Há uns tempos, falava com a minha avó sobre as preocupações habituais de qualquer jovem adulto que não se sente ainda nem um bocadinho crescido. Tantas decisões, cada uma com infinitas trajetórias (ilusoriamente) de sentido único, escondidas nas suas profundezas. A descoberta de uma nova realidade, insegurança, inquietação, virgindade, uma multitude de emoções revisitadas. Depois de pôr a minha avó a par deste vendaval, ela fez o que faz sempre e o que faz melhor. Há qualquer coisa nesta perspetiva alheia que os avós tomam com os desabafos dos netos que faz com que os seus conselhos sejam inigualavelmente apurados, um juízo ao mesmo tempo sensato e descabido. Mas desta vez foi diferente, na sua imprevisibilidade e em troca do seu prudente conselho, a minha avó apaziguou o meu desassossego com um reconto da sua própria narrativa, a história da sua chegada à idade adulta. Sim, é verdade, os nossos avós não nasceram velhos. Bem embebida no meu egocentrismo, nunca antes tinha tirado um momento para considerar este facto. A juntar-se a isso, a minha avó não é pessoa de falar sobre si, nunca foi. Suponho que sempre tenha tomado uma certa satisfação nessa impenetrabilidade de carácter.

Mas nesse dia falou e contou-me dos tempos em que os fios de cabelo branco se contavam como quem conta os dedos de uma mão. “Nesses tempos”, ela explicou-me, “era toda uma outra destreza. Uma prontidão de espírito, um foco de energia inteiramente distinto. Não havia cá as delicadezas que hoje se vê por aí fora. O trabalho não era gratificante, não pelo facto de não o ser, mas por não ser esse o seu intuito; era apenas para fazer, não para magicar sobre o que deveria ou poderia ser. Estava feito estava feito, e não se pensava mais nele até ao próximo encontro. Tinha dois empregos, trabalhava das nove às cinco na fábrica, e depois acelerava até ao escritório e ficava lá até às nove da noite. À hora certa voltava para casa, fazia a janta para o teu avô e punha a tua mãe na cama sem grandes birras.”

Fiquei à espera de um ponto final, um toque subtil de lamúria, qualquer coisa como “e andei trinta anos nesta vida” ou “e no dia seguinte lá estava eu outra vez”. Mas a história ficou por aí, e por isso perguntei eu: mas Vó, não ficavas cansada? Com um tom seguro, sem sinal de dúvida, disse-me que não, que na verdade nunca esse pensamento ocupou qualquer espaço na sua mente e que desfrutou intensamente desses anos que foram o pico da sua vivência.

Apresento-vos este pequeno episódio para esclarecer o porquê da minha reflexão, e a ele voltaremos a seu tempo. Foi com este pequeno episódio que ela começou, levando-me a questionar os princípios básicos enraizados na sociedade em que vivemos e a sua modulação com o passar das décadas, e a investigar um tópico que vai por muitos nomes: hustle culture, sociedade do cansaço, ou, como optei por lhe chamar, cultura de partir pedra. Esta é a cultura em que vivemos, diferente na sua essência daquela vivida pelos nossos avós. Uma cultura que perpetua a ideia de que o sucesso é apenas alcançado e fundamentalmente definido pelo desempenho profissional, que deve ser exercido à máxima capacidade e procurado incansável e implacavelmente. Nessa busca por sucesso, o descanso é traiçoeiro, ineficiente, nada senão uma distração do trabalho que permanece por fazer, e que deve ser obsessivamente feito com vivacidade, positivismo e assertividade. A idealização do trabalho e do cansaço leva à perigosa assunção de que um indivíduo é inteiramente definido pelos resultados que produz e pela a sua ambição e objetivos profissionais. Estes ideais rapidamente assumem o controlo de cada decisão, a curto e longo prazo, de ativos físicos, financeiros e humanos, regendo o livre-arbítrio de uma sociedade acelerada, sobrecarregada, movida à base de produtividade e tecnologia. 

Somos cada vez mais incentivados a procurar sensações de triunfo e realização pessoal nos frutos do nosso rendimento, a celebrar a capacidade de paralelizar tarefas e de produzir continuamente. Na sua “Sociedade do Cansaço”, Byung-Chul Han evidencia como esta evolução de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de desempenho nos aproxima daquilo que em tempos fomos, animais em estado selvagem. “Um animal ocupado no exercício da mastigação da sua comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo também com outras atividades. Deve cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido”. O que outrora se apresentava como uma capacidade de reflexão e contemplação profunda, vantagem que nos permitiu evoluir e diferenciar de tantas outras espécies, vem agora a ser trocada por uma outra estrutura de atenção, a hiperatenção, caracterizada pela frenética transferência do foco entre estímulos, informações e processos que nos rodeiam incessantemente.

Sucesso requer esforço e trabalho, sem sombra de dúvida. A mudança de paradigma é a observação de que o sucesso engloba os diversos domínios da vida, interdependentes, que requerem um equilíbrio delicado da balança, equilíbrio este que é progressivamente esculpido e polido por cada indivíduo. O peso que cada um decide atribuir às diferentes partes do todo é de natureza subjetiva e pessoal, não deixando espaço para sentimentos de supremacia ou culpa consoante a escolha, ponto onde a cultura de partir pedra se mostra fortemente opinativa.

Regresso agora à narrativa e ao trilho do meu pensamento, perplexo com o desapego da minha avó ao seu trabalho e com a drástica reviravolta da norma societal desde então. Foi no embrulho desta reflexão que contemplei o papel da tecnologia, nosso esplendor e ruína em iguais partes, para tão poderosa reforma. Num mundo onde as forças tecnológicas impulsionam as potências económicas e revoluções ocorrem de minuto a minuto, a tecnologia mostra-se vital para a consumação da hustle culture e para o clímax efetivo das práticas que promove. Ela concede uma propriedade crítica ao trabalho – a mobilidade – tornando-o extensível até casa (um fiel companheiro de ceia e pequeno-almoço), levado por comboio, visitado no café, retomado em qualquer instante. No tempo dos nossos avós, o trabalho encontrava-se balizado no local de trabalho e cessava no momento em que um pé era posto fora dele. Agora viaja connosco, reforçando a expectativa que cai sobre qualquer indivíduo tido como dinâmico e empenhado na sua vida profissional de se manter permanentemente conectado, ativo, operacional, a todas as horas e a todo o custo – é esse o preço a que se vende hoje o sucesso. A vulgarização desta mentalidade tem vindo a eclodir distúrbios, transtornos e desordens (também eles o novo normal) e a comprometer fortemente a saúde mental desta nossa sociedade do cansaço. 

Esta reflexão, arbitrariamente plantada por uma conversa domingueira com a avó, germinou num acordar da consciência para um tema sensivelmente censurado por toda a cadeia alimentar empresarial, começando na sua base com os millennials. Sei eu e sabes tu, vemos ao nosso redor e talvez até sintamos na própria pele, que o verdadeiro impacto da cultura de partir pedra começa gradualmente a ser desmascarado, a entropia que gera obstinadamente contagia aqueles levados pela sua corrente. Oiço vozes à distância que se aproximam distintamente, em crescendo, um apelo a metamorfosear-se numa exigência, uma petição com um crescente de apoiantes. Subscrevem à sua libertação da dependência do espelho social, ao cultivo de ambientes inclusivos e equilibrados, onde diversidade possa ser sinónimo de riqueza, onde cada um é convidado a redescobrir-se sem sentenças constitucionais predefinidas, onde todos os caminhos cavados na terra são dignos e reconhecidos, e não só um trilho único assinalado com direção ao sucesso.

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