Estar quieto e calado a ouvir ou a pensar durante muito tempo pode ser doloroso. Mas nunca esqueçamos, também é muito doloroso depilar as virilhas com cera e, mesmo assim, há muita gente que o faz.

Texto: A Crónica do Bombarda


“Tu já sabes tudo o que é preciso saber, o que os outros dizem não interessa. Tu já sabes o teu caminho, basta que o descubras dentro de ti.” disse-me no outro dia o meu tio que quer lançar- se no negócio dos livros de auto-ajuda e anda a ensaiar uns acordes. Eu disse-lhe que estava tudo muito bem, mas que era preciso que ele colocasse o cinto de segurança porque o carro estava a apitar há 5 minutos e com aquele chinfrim eu não conseguia conduzir. Enfim, segurança rodoviária à parte, creio que o meu tio foi capaz de captar uma ideia que se vai mantendo à tona no mar revolto das tendências: a lógica segundo a qual cada um de nós nasce um produto finalizado e que não há melhorias a fazer.

Não nego que este tipo de dogmas é benéfico para pessoas com auto-estima baixa. Porém, é irritante junto de pessoas com tendência natural para o narcisismo e é catastrófico para os professores, que todas as manhãs entram em salas de aula cheias de jovens, os quais, apesar de não serem capazes de ler “Os Maias”, são bons demais para estarem ali a aprender qualquer coisa. Para além deste clima, como se pode defender a importância da escola quando imensas figuras públicas acham, a julgar pela falta de escrúpulos com que mentem no seu currículo, que ela é dispensável? Sócrates, pisando as relvas dos jardins de Atenas, dizia que só sabia que não sabia nada; volvidos quase 2500 anos, parece que toda a gente tem a certeza que sabe tudo o que precisa de saber.

Mas mesmo que não houvesse maus exemplos, a escola, por si só, continuaria a ter um problema de relações públicas: ir às aulas é, verdadeiramente, uma enorme maçada. Estar quieto e calado a ouvir ou a pensar durante muito tempo pode ser doloroso. Mas, nunca esqueçamos, também é muito doloroso depilar as virilhas com cera e, mesmo assim, há muita gente que o faz. Há uma boa razão para isso: o terror de ter pêlos nas zonas íntimas é superior à dor de as ter depiladas. Ora, é esta lógica que interessa transportar para o ensino: o terror de ser ignorante tem de ser superior à trabalheira associada à aprendizagem. Assim, por mais dores de cabeça que lhes dêem as equações, por mais espessos que sejam os livros que tenham que ler, os alunos vão saber que se estão a desenvolver e a impedir que cresça a estupidez, esse monstro pernicioso.

Se for possível explicar isto na prática, talvez a escola passe a ser vista com mais respeito. Porque fora da escola, na “vida real”, quando os alunos tiverem que se valer por si mesmos e mostrar quem são, vai valer a pena que sejam capazes não só de apresentar uma pele macia e depilada mas também uma capacidade de raciocínio independente, sem dogmas, sem mal- entendidos e, sobretudo, com humildade perante aquilo que não se sabe. As zonas íntimas, essas que estão para lá da superficialidade das fotografias, são as mais importantes e nisso os livros de auto-ajuda têm razão. No que eles falham é em dizer que essas zonas são perfeitas por princípio. Não são.

O perigo dos pêlos, assim como da ignorância, é que ambos estão sempre a crescer e por isso é fundamental que os mantenhamos controlados.

4 de Dezembro, 2018

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