No contexto da pandemia, no qual foi necessário confinamento da população, sacrificamos em parte a saúde mental para assegurar a saúde física. Agora no decorrer da segunda vaga, 

Ouço as vozes,
Mas as vozes não me ouvem.
À minha volta há luz
E lá fora há vida
E cá dentro
Eu apenas só.
Ouço as vozes
E os meus suspiros
De dor;
De tristeza;
De mágoa;
De raiva;
Só os meus suspiros e as vozes,
Que não me ouvem.

Autoria: Carolina Bento, MEBiom (IST)

Escrevi este poema aquando do confinamento. Recordo-me de estar a ouvir uma aula através do Zoom e de ter tido um ataque de ansiedade. Não conseguia parar de chorar. Não conseguia deixar de me sentir revoltada e completamente sozinha. Não foi a única vez que isso aconteceu nesses meses. Recordo-me de sentir constantemente um vazio e uma falta de esperança intermináveis. Não consigo transmitir de forma nenhuma aquilo que senti, mas não creio que seja necessário, tenho a certeza de que como eu, muitos estudantes do ensino básico, secundário e universitário se sentiram assim. Tenho a certeza que a maioria de nós sentiu algo deste género, de forma mais ou menos forte.

Apesar de ainda não existirem muitos estudos que relacionem o efeito da pandemia ou do confinamento com a deterioração da saúde mental na população, é possível relacioná-los com um aumento da prevalência de fatores que a OMS considera de risco para o desenvolvimento de doenças psiquiátricas. Estes fatores dividem-se em individuais, sociais e ambientais. 

A nível individual, os principais fatores de risco são a baixa auto-estima, imaturidade emocional e cognitiva e dificuldade de comunicação. Em termos sociais, os fatores que foram acentuados com a pandemia foram a solidão ou o luto, a negligência, a possível exposição a abuso ou violência, a diminuição do rendimento, o declínio do desempenho escolar e a perda de emprego. Finalmente, os fatores ambientais que podem afetar o bem-estar mental de uma pessoa e que terão sido afetados pelo confinamento são a dificuldade de acesso a serviços essenciais, a injustiça e discriminação, e a própria exposição a um evento traumático [1]

Em crianças ou jovens em idade escolar, o fecho dos estabelecimentos de ensino pode ter um efeito negativo tanto sobre os fatores sociais e ambientais, como sobre os fatores individuais. 

A escola é um meio fundamental para fomentar a socialização e maturidade cognitiva. O contacto com os colegas e professores pode colmatar as falhas introduzidas pela menor presença dos pais que, atualmente, trabalham mais, até mais tarde e têm de estar em constante ligação ao trabalho. Quantos de nós podemos dizer que não sofríamos no verão com as férias intermináveis? Sem podermos falar com os nossos melhores amigos? Se pensarmos que esse verão de três meses poderia passar a uma pausa de quase seis meses, quantos de nós aguentaríamos? Cortar este contacto pode contribuir para um aumento das dificuldades de comunicação, da imaturidade emocional e da solidão.

Para além disso, é possível que muitos jovens se encontrem em situações de negligência em casa ou que vivam em condições sociais mais difíceis. Nesses casos, a escola, para além de funcionar como uma balança de integração na sociedade e de diminuição da discriminação, pode ser o único lugar onde os estudantes encontram um porto de abrigo. Os professores podem ser veículos para a estimulação intelectual do aluno e podem influenciar positivamente a sua autoestima. Todos nos lembramos do nosso professor favorito, que além de nos ensinar matéria, nos ensinou a sermos melhores seres humanos e mesmo a sentirmo-nos mais humanos.

Ademais, os professores podem ser os únicos capazes de identificar situações de violência doméstica ou de um efeito tóxico da família no desenvolvimento das crianças e jovens, o que se torna uma tarefa muito mais difícil de concretizar utilizando apenas ferramentas digitais de ensino. Sempre houve aquele professor que nos via mais em baixo e queria saber o que se passava ou que mandava uma piada para nos fazer rir ou que se sentava connosco e conversava. Assim, é possível compreender a importância da escola, dos professores e dos nossos colegas para o bem-estar mental dos jovens em idades escolar. 

A estabilidade financeira é também um fator que contribui positivamente para níveis elevados de saúde mental e, consequentemente, os efeitos nefastos que a pandemia teve sobre o emprego e a economia podem também ter contribuído para uma deterioração do bem-estar mental. O número de pessoas que passou a depender de apoios sociais ou mesmo da ajuda de organizações não governamentais aumentou bastante. Por exemplo o Banco Alimentar relata um aumento de cerca de 16% dos pedidos de ajuda, em relação a uma situação pré-pandemia[2]

Como se a exacerbação da maioria dos fatores de risco não bastasse, a OMS reportou recentemente que 93% dos países por si avaliados num estudo interromperam de alguma forma a prestação de cuidados ou serviços de saúde mental.

Desta forma, é expectável que a longo prazo se observe uma deterioração significativa da saúde mental na população mundial e em particular, no nosso contexto, na população portuguesa. É nosso dever tomarmos precauções para que tal efeito possa ser reduzido ao máximo.

Eu tenho a certeza de que vou ter muita dificuldade em lidar com um possível fecho das universidades e com um novo confinamento obrigatório e também tenho a certeza que não sou a única. Sei que muitos estudantes deslocados não fazem questão de passar o resto do ano em casa e que a maioria dos alunos de ensino secundário e básico não querem voltar a ter de passar os dias inteiros fechados em casa com a família. Também sei que esta situação pode ter um impacto enorme na nossa saúde mental no futuro e, consequentemente, sei que devemos e temos a obrigação de cumprir ao máximo as medidas que forem impostas. O Técnico está seguro, a lotação das salas está limitada, o que mais vejo agora são desinfetantes para as mãos e sempre que aqui entramos a nossa temperatura corporal é medida. No entanto, se não houver responsabilidade da parte de todos é impossível manter as coisas assim. Se queremos continuar a ter aulas presenciais e a vir estudar ou fazer trabalhos para cá, é preciso que todos cumpram as regras e sim, isso inclui o uso de máscara em todo o campus. Sejamos responsáveis para podermos continuar a viver.

Referências:

  1. Richie, H., & Roser, M. (18 de Outubro de 2020). Mental Health. Obtido de Our world in data: https://ourworldindata.org/mental-health
  2. Agência Lusa. (18 de Outubro de 2020). Pedidos ao Banco Alimentar voltam a aumentar. Milhares de pessoas dependem da Caritas. Obtido de Eco: https://eco.sapo.pt/2020/10/16/pedidos-ao-banco-alimentar-voltam-a-aumentar-milhares-de-pessoas-dependem-da-caritas/
  3. OMS. (18 de Outubro de 2020). Covid-19 interrompe serviços de saúde mental na maioria dos países. Obtido de ONU News: https://news.un.org/pt/story/2020/10/1728672

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