Com a nova metodologia de ensino instalada, a dinâmica dos trabalhos de grupo sofreu alterações. Se, por um lado, a Era Digital nos preparou para a comunicação virtual, por outro, os contras desta realidade digital tingiram, de certa forma, o trabalho académico.

Autoria: Carolina Pereira, LEIC (IST)

Nos últimos meses, têm decorrido os mais variados estudos sobre o ensino à distância, incidindo na sua eficácia, na facilidade de acesso e, principalmente, na adaptação a este novo modelo de ensino. O aparente equilíbrio entre vantagens e desvantagens do ensino online mostra a dificuldade em generalizar uma conversa sobre a temática. Depende da perspetiva do sujeito, da experiência pessoal e das expectativas de cada um. Olhando para o assunto através dos meus olhos de aluna que iniciou agora o seu terceiro ano de licenciatura no Instituto Superior Técnico, um dos tópicos sobre os quais mais me interrogo é a interação entre colegas e a logística dos trabalhos de grupo no contexto atual.

A máscara do username

Vivemos na Era Digital. A nossa geração está de tal forma familiarizada com a tecnologia que, para muitos, esta transição para as aulas à distância não trouxe muito de novo. Estamos habituados a uma existência online baseada em avatares e usernames. 

Apesar de nem sempre associarmos características humanas a um username, confiamos nessa entidade e interagimos, com ou sem filtros. Então, dificilmente nos sentimos desconfortáveis numa reunião com dezenas de nomes, muitos dos quais completamente desconhecidos para nós.

Não existindo um esforço para aproximar esse utilizador ou participante à nossa identidade, tendencialmente vamo-nos escondendo por detrás daquele quadrado preto com a primeira letra do nosso username. Ou até vamos mais longe e aderimos à comunidade dos “pontos” – os alunos fantasma, uma aprendizagem em modo anónimo. 

Questiono se estes alunos continuariam fiéis à sua anonimidade em regime presencial. Esconder-se-iam debaixo da mesa para não serem chamados, como na Escola Primária, talvez? Todos temos o direito à privacidade. No entanto, para efeitos de educação, devemos assumir a responsabilidade de estar presentes e identificados, quer por respeito aos docentes que se esforçam para que possamos continuar a ter aulas, quer para nos mantermos fiéis ao dever moral de participar nas atividades letivas. Afinal, se escondemos a nossa identidade é porque não queremos ser vistos. É uma vergonha assim tão grande ser visto numa aula? Sejamos honestos, se não queremos aparecer, valerá mesmo a pena iniciar sessão? Ainda por cima agora é tão fácil fugir das aulas! 

A ausência de feedback visual na experiência social virtual proporciona uma abstração das propriedades humanas de quem está do outro lado do ecrã. Isto dá-nos uma segurança assustadora no que toca a fingir ser quem não somos. Dizemos o que queremos, não temos de lidar com a reação do outro. Este dado adquirido aplicado ao ensino à distância transforma-se numa perigosa ferramenta de procrastinação. Mais adiante, explorarei a questão do trabalho em grupo, mas fica já aqui anotada a grande possibilidade de, mais que nunca, ignorar a responsabilidade como membro de um projeto de grupo e ainda dormir bem com isso. Basta marcar as mensagens como lidas, mudar o status para invisível… 

Felizmente (ou infelizmente, depende dos valores de cada um), neste novo semestre começam a surgir novos esforços para tornar as aulas online o mais próximas possível do presencial. Desde apelos a que se ligue a câmara, a regras explícitas sobre o formato dos nossos usernames e mesmo obrigação de login com autenticação pelo IST. Talvez estar sempre de câmara ligada não seja viável. Apesar de soarem a desculpas esfarrapadas, a maior parte delas são justificadas e requerem compreensão da parte de todos. É comum apontar o dedo ao outro e, mais tarde, inverter-se a situação. Na ausência de compreensão,a humildade apenas nasce da experiência pessoal.

Separação numérica

De modo a diminuir a afluência de pessoal no Campus, dividir os alunos consoante a paridade do seu número mecanográfico parece ser a solução mais lógica. O que poderá ter apanhado muitos de surpresa foi o facto desta separação implicar a formação de grupos exclusivamente com colegas de semanas pares ou ímpares. Para os novos alunos, é provável que tal restrição não tenha grande significado, visto que ainda se encontram numa fase de criar laços com os novos colegas. Agora, para os restantes alunos, existe já uma tradição de combinar os grupos de trabalho com tamanha antecedência que quando se soube desta condicionante, gerou-se bastante ruído. Depressa surgiram conversas de grupo dedicadas à procura de parceiros de trabalho. As propostas de horários foram repensadas à última da hora por forma a terem em vista a compatibilidade com estes colegas.

Pessoalmente, ser separada de um grupo de pessoas com quem trabalho bem, só por termos paridades diferentes, deu-me uma boa ideia das irracionais separações sociais que surgem ao longo da História. Não fosse ter-se tomado consciência deste entrave e revisto a forma como se inscrevem grupos de trabalho numa disciplina,hoje estaria condenada a trabalhar exclusivamente com pessoas que não conheço e que provavelmente não se dariam a conhecer sem ser por texto. Claro que é sempre uma experiência a valorizar e só assim é possível descobrir a nossa própria comunidade. No entanto, gosto de ter pelo menos um elemento no grupo com quem, à partida, sei que posso contar e de quem conheça o estilo de trabalho.

Foi um caso em que a insistência da nossa parte acabou por ser ouvida e a rigidez da organização foi ganhando flexibilidade. Ainda assim, a decisão final de anular as restrições nos grupos chegou já num momento em que tínhamos arranjado alternativas e por questões morais ou porque aceitámos o desafio de trabalhar com pessoas novas, mantivemos alguns dos grupos. Com cerca de duas semanas de trabalho nestes grupos, devo dizer que tem sido, de modo geral, uma experiência positiva e que tal como esperado surgiram colegas que encontram conforto na virtualidade da comunicação online e assim decidiram fugir a reuniões.

Trabalhar em grupo no contexto online

Se, por um lado, fui meio forçada a sair da zona de conforto em termos de grupo,por outro, reforcei a ideia com que fui crescendo no Técnico – a existência de uma família.Encontramos dentro de cada curso e núcleo uma comunidade unida. Funcionamos como um ecossistema, temos as nossas relações de simbiose e mutualismo (e parasitismo,claro). Isto é algo que valorizo muito. Por mais que se tente mimetizar este ambiente em plataformas online, nunca irá ser a mesma coisa. Entrar num servidor Discord ou entrar no Lab15 não tem a mesma energia. De igual forma, conhecer as pessoas com quem trabalhamos somente através de um conjunto de características de uma identidade online não tem o mesmo impacto que ver e conviver com a pessoa presencialmente. 

Mas será que isto é assim tão estranho para nós? Em conversa com pessoas mais velhas, é frequente receber comentários sobre a estranheza de fazer um projeto de grupo completamente apenas via mensagens de texto ou voz. As gerações mais novas estão já acostumadas a esta forma de “socialização”, pelo que nem insistimos ou nem chegamos a pensar no impacto que a comunicação, para além do verbal, ou escrito tem numa relação quer afetiva quer de trabalho.

Questiono até que ponto o impacto visual tem implicações na formação de grupos. Ainda que inconscientemente, passamos a vida a julgar os outros. Ao mesmo tempo,tendencialmente associamo-nos a pessoas com quem partilhamos algo. Estes atores de escolha acabam por ser postos de parte na via virtual. São encontros cegos, às vezes até mudos. Cabe-nos a nós confiar no outro e fazer um esforço para aproximar esta experiência a uma conversa cara a cara. Aqui entra a questão moral de lutar contra a procrastinação e ser um membro ativo. Afinal, agora podemos fugir à regra e estar atentos às notificações que chegam aos nossos dispositivos pessoais de forma a não perder a dinâmica quer entre colegas quer entre docentes e alunos.

Para quem sempre preferiu trabalhar à distância frente a passar longas tardes em salas de estudo a trabalhar com o grupo, muito pouco mudou. Vamo-nos reunindo virtualmente, compartilhando ecrãs e usando plataformas que permitem ver, em tempo real, a evolução do trabalho. As eventuais resistências que ainda pudessem existir perante a utilização destas ferramentas acabaram por se dissipar. Sobre este assunto, já comentaram comigo que o curso que frequento (Engenharia Informática e de Computadores) tem vantagens. Os nossos trabalhos são, em grande maioria, digitais; as entregas sempre foram online. Acrescentam ainda que os docentes estão mais familiarizados com as tecnologias e,consequentemente, as aulas online não sofrem perdas de qualidade. Se isto é verdade ounão, sou incapaz de averiguar. Teria de viver a experiência de outros cursos para ser capaz de perceber.

Aquilo que sei dizer é que, independentemente do grau de preparação de cada um,esta nova realidade trouxe desafios que estão a ser ultrapassados e que nos vão preparando para lidar com situações futuras de teletrabalho. É de reforçar que agora, mais que nunca, cabe-nos a nós sermos responsáveis e cumprirmos os nossos deveres, quer no trabalho individual, quer em grupo. Acredito que, com o passar do tempo, se tornará cada vez mais natural para todos trabalhar sem conhecer presencialmente os colegas. Afinal, a cada nova geração, a tendência é introduzir-se cada vez mais cedo a tecnologia no dia-a-dia das crianças. Em vez de se criar conta nas redes sociais aos 13 anos, começa-se a fazê-lo logo aos 5 anos e desde aí inicia-se o hábito de conectar-se aos amigos via mensagens de texto. Assim, quando se chega ao Ensino Superior (ou mesmo antes), com ou sem pandemia, fica-se em casa o dia todo em videochamada.

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