Com um extraordinário poder de síntese, António Machado escreveu que “O caminho faz-se caminhando”. Estou certo que esse era o caso no século XIX, mas actualmente é mais correcto dizer que o caminho faz-se sentado num confortável assento de autocarro.

Autoria: César Bombarda*


O autocarro cheirava muito a chulé. Eu tinha adormecido mal entrara e não sabia quanto tempo assim tinha estado. Lá fora era de noite e pela janela, por detrás do meu reflexo, estendia-se um denso breu. O autocarro seguia a velocidade constante; o barulho monótono do motor era um soporífero forte e por isso muita gente ia a dormir. Dos poucos passageiros que estavam acordados, todos mexiam indolentemente nos telemóveis excepto uma senhora de meia idade que, tendo acendido a luz de leitura, ia escrevinhando qualquer coisa num caderninho que parecia uma agenda. Era sábado e o relógio marcava 3h45.

Este autocarro saiu do terminal rodoviário com a promessa de que levaria as pessoas para o Futuro. Aliás, no bilhete está escrito “Direcção: Futuro”. “Este pode muito bem ser o último autocarro para o Futuro, é que sabe,  já ninguém quer saber desta viagem…”, disse o senhor do guiché ao vender-me o bilhete. “Não me diga,” retorqui, pensando que gostaria que os meus filhos embarcassem nela um dia, “Tem a certeza disso?”, “Tenho a certeza, mas a certeza é mentira. Ter certeza é não estar vendo. Depois de amanhã não há.

Ruminava as palavras do senhor do guiché quando vi que a senhora do caderninho se dirigia ao condutor do autocarro: “Falta muito para chegarmos?” perguntou, “Aqui não se chega a lado nenhum; parámos dentro de duas horas para ir à casa de banho e seguimos viagem.”, “Mas este autocarro não vai para o Futuro?”, “Vai.”, “Então diga-me quando é que chegamos ao Futuro!”, “Ora, ao Futuro ninguém chega. O Futuro não é um destino, é uma direcção.“. A senhora continuou: “Deixe-se de brincadeiras. Eu tenho que voltar ao trabalho na 2ª feira!”, “Isto não é nenhuma brincadeira. Não leu o que diz no bilhete?”, “Li, pois. Diz que a carreira vai para o Futuro.”, “Exactamente. E é para o futuro que a estou a levar.”, “Está bem, mas então para quando é que está prevista a chegada?”, “Não está, já lhe disse. A viagem para o futuro tem início, mas não tem meio ou fim.”, “Olhe, o senhor está a ser muito mal educado. Vou fazer queixa de si, vai ver.” Dito isto virou as costas e foi sentar-se no seu lugar. O condutor encolheu os ombros.

Entretanto parámos numa estação de serviço, ou melhor, num “oásis da autoestrada”, como disse um senhor bonacheirão, no banco ao lado do meu, enquanto calçava os sapatos. (Talvez fosse ele a fonte do chulé, mas deixo essa investigação para mais tarde.) Toda a gente saiu a correr do autocarro em direcção às casas de banho, que tinham mobília moderna e estavam impecavelmente zeladas. Afinal, ninguém sabe como vão estar as casas de banho da próxima estação de serviço: pode faltar papel higiénico, pode ter as sanitas entupidas, pode ter os trincos dos cubículos estragados, sabe-se lá… O melhor é aproveitar agora para esconjurar os resíduos bexigo-intestinais porque o futuro é imperscrutável e não se sabe quando é que vai haver casas de banho tão limpinhas e asseadas como estas.

Eu lidei rapidamente com os assuntos relativos à casa de banho e fui das primeiras pessoas a entrar de novo no autocarro. Pela janela, vi que a senhora do caderninho gesticulava junto ao motorista, enquanto (presumo) repetia a mesma coisa que lhe tinha dito pouco tempo antes. Os outros passageiros passavam, olhavam e entravam no autocarro; o motorista, pela calma com que ia sorvendo o fumo do seu cigarro, deve estar habituado a encontrar viajantes com a mesma impaciência e dúvidas que esta senhora. De facto, como vim a saber mais tarde, muitas pessoas que embarcam para o futuro têm dificuldades em aceitar que não controlam o destino da viagem, que não há nada que possam fazer para parar ou mudar de direcção e, especialmente, que não há forma de voltar para trás.

Na viagem para o futuro nunca se chega, concretamente, a lado nenhum; há um movimento constante intercalado por paragens em estações de serviço. Sempre que se pára numa estação de serviço, não se sabe quando, onde ou como é que haverá outra e então, nesta incerteza, só se pode fazer uma coisa: gestão; gestão dos nossos intestinos e bexiga, gestão das expectativas, gestão das relações com os outros passageiros. Nos bancos do fundo ouvia-se alguém a dizer:

Tudo é vário. Temporário. Efêmero. Nunca somos, sempre estamos!

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