Fast fashion, o mais recente conceito adotado por todas as grandes marcas e corporativas de produção de vestuário, é exatamente o que o nome indica – moda rápida, ou talvez por palavras menos fashionable, moda descartável.

Autoria: Marta Oliveira


Esta é a moda que se vê toda a gente usar na rua e que imediatamente se quer comprar para não se perder o comboio das últimas tendências. É a moda apetecível mas de modo nenhum essencial, que se usa duas ou três vezes até concluir que faz comichão no pescoço. A moda de qualidade questionável, que se deixa encostada no armário a ganhar pó até um dia, finalmente, ser deitada fora – isto sem remorsos, visto ter custado apenas 5€. E assim o ciclo se repete, alimentado pelas Zaras, H&Ms e Primarks da indústria, que incitam a gana de comprar impulsivamente e a acumulação obscena de roupa por parte dos consumidores.

As repercussões desastrosas desta exponenciação vinte-e-um-centista passam ainda algo despercebidas, encobertas pelas entidades que beneficiam em manter a máquina lucrativa a funcionar. Mas a máquina nem sempre operou deste modo; na verdade, a indústria da moda sofreu uma total reinvenção nas últimas décadas, uma reviravolta voraz no sistema em que o único e singular objetivo é esse mesmo, o lucro – ainda que este comprometa muitas outras frentes.

Em tempos, o cenário era, em todos os aspetos, descoincidente com o atual. Numa realidade pré-revolução industrial, as vestimentas não eram senão uma absoluta necessidade para a sólida maioria da população, feitas pela própria para a própria. Mesmo para a humilde percentagem de abastados, cada peça de roupa era feita à mão e à medida, acomodando apenas o seu adquirente.

Com o brotar do século XX e a introdução da máquina de costura, as grandes guerras trouxeram consigo uma urgência para a padronização da manufatura de uniformes militares, prontos a vestir por qualquer um – a primeira semente da conceção de grande escala a custo mínimo. Efetivamente, o conceito de roupa como um aprazimento estreou-se apenas na década de 60: uma geração baby boomer rejuvenescida, com apetite pantagruélico pela liberdade de expressão, criada no pico de prosperidade e abundância do século – o consumismo dispara, nasce o frenesim das tendências da moda.

Este foi o período em que a indústria de vestuário e têxtil começou a ver-se aflita para acompanhar a procura avassaladora e a disputa pela melhor oferta, tendo-se sentido compelida a externalizar o seu fabrico para países de mão-de-obra barata – diga-se China, Índia, Bangladesh e Paquistão. Este movimento rapidamente escalou para a abertura do século XXI com uma dimensão titânica, uma efetiva revolução na identidade da indústria da moda. À medida que o mundo da moda foi reunindo um crescendo de adeptos, fascinados com um universo renovado de oportunidades, o impacto desta reforma tornou-se cada vez mais claro: peças de roupa de qualidade reles a preço quase simbólico são a nova norma.

Agora mais do que nunca, o quadro é preocupante. Este conceito de fast fashion traz consigo problemas em muitas frentes. Uma delas, como se pode adivinhar, é o ambiente, que é dos que mais sofre com esta brincadeira consumista. Para aguentar com o ritmo da procura, as empresas têm vindo a desenvolver os seus sistemas de produção de modo a consumar, em menos de meia dúzia de semanas, o processo de fabricação de uma coleção na sua totalidade. A medalha recebe-a a Zara, que a ergue com orgulho por requerer apenas 15 dias para converter os desenhos em papel em cabides preenchidos nas suas lojas. Com este mote, asseguram o lançamento de mais de vinte coleções por ano, ao invés das duas coleções sazonais que esperaríamos há vinte anos atrás.

Coleções-extra exigem produção-extra, que por sua vez se manifesta em mais poluição. Com efeito, a indústria da moda é responsável por 5.4 % das emissões de carbono de hoje. Coleções-extra significam também que a velocidade absurda de produção já excedeu há muito a velocidade de reciclagem dessa roupa. As infinitas pilhas de desperdício juntam-se hoje no aterro para formar uma vasta ilha de camisolas pouco gastas – e apesar dos crescentes incentivos e protocolos para uma política de sustentabilidade, muitos deles até já adotados por estas empresas, os seus alicerces estão ainda assentes na premissa da moda descartável, onde os interesses económicos se sobrepõem indubitavelmente à consciência da pegada ambiental.

A outra questão preocupante concerne os meios necessários para atingir tamanha escala de produção em tão pouco tempo – e o segredo está na mão-de-obra. Não é somente barata (a conduta geral denota salários abaixo daquele considerado mínimo para satisfazer as necessidades básicas de vida), é miserável; as condições desumanas e extensivas horas de trabalho são transtornantes, mas não se ficam por aí. As grandes questões cada vez mais contestadas e censuradas no terreno são a prática ainda corrente de trabalho forçado e/ou infantil e a carência de proteção dos trabalhadores. O desrespeito dos padrões mínimos de segurança nas fábricas de vestuário tornou-se particular alvo de atenção após a lamentável sequência de desastres industriais no Bangladesh. Em novembro de 2012, a deflagração de um incêndio numa fábrica em Dhaka custou a vida a mais de uma centena de trabalhadores; precisamente cinco meses depois, na periferia da mesma cidade, o desabamento do edifício Rana Plaza – que acomodava instalações da Primark, H&M e Benetton – apurou um balanço final de 1127 mortos. Esta tragédia não é senão um mero reflexo do ataque frontal aos direitos laborais e humanos que decorre neste preciso momento, justificado pela indústria da moda para que lhes seja viável apresentar os valores deflacionados que vemos hoje nas etiquetas.

Mas nem tudo é execrável. Vemos uma tendência global para a consciencialização, é verdade, uma maior preocupação com o planeta e a exaustão dos seus recursos, com as alterações climáticas, com o entulho nos aterros, com o zelo ambiental; um público cada vez mais informado e ciente das repercussões diretas da sua conduta social. Não obstante, a pesar no outro prato da balança encontra-se uma indústria que subsiste do incentivo ao materialismo e de uma cultura de descartabilidade. Fast fashion é um conceito já banalizado, incutido na sociedade de consumo como uma prática quotidiana inofensiva. É imperativo que haja pensamento crítico e indagador, bem como uma perceção das implicações que estão no cerne de uma ação aparentemente inócua – afinal de contas, o voto que temos na matéria é a maneira como escolhemos gastar a nossa moeda. Tenhamos isso em mente na próxima ida às compras.

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