Quando Greta tinha 11 anos, não falava. Transtornava-a, tal como a transtorna ainda hoje, aquilo a que chama crise climática. Então, percebeu que tinha de agir, sair do seu estado anti-social e passar a usar a sua voz para confrontar a sociedade, com a qual estava descontente.

Autoria: Ana Glória Cruz


É de certo modo fascinante pensar na voz de Greta. Como, inicialmente, esta foi consumida pelo seu estado depressivo e latente e agora se faz ouvir na ONU, em tom mordaz (“Como se atrevem?”), para todo o mundo, como a própria referiu, aquando da sua aparição na capa da revista TIME. Assim sendo, despoleta opiniões também em todo o mundo: como qualquer influencer, possui fãs e haters, os quais a observam minuciosamente a tempo inteiro. 

O fenómeno da Greta Thunberg é, na sua génese, um fenómeno das redes sociais, embora a sua figura contraste abertamente com o estereótipo de uma influencer. Foi catapultada no Facebook do empreendedor Ingmar Rentzhog, o qual se cruzou com a jovem aquando da sua primeira greve escolar pelo clima. A imagem que capturou da menina depressa se tornou viral e a cobertura da notícia foi inflamada pelos media mais tradicionais. É muito interessante notar que este é um fenómeno apenas imaginável nos tempos em que vivemos, onde, numa questão de instantes, algo pode passar a ser do conhecimento geral. A tecnologia a que estamos tão bem acostumados assim o possibilita, mas também acarreta consigo implicações mais desfavoráveis para a Greta, uma vez que, de repente, toda a gente no mundo tem algo a dizer e ninguém se importa muito com o que diz numa rede social. 

Fazem-se muitas acusações à jovem ativista: que é um fantoche da esquerda radical, que está a ser manipulada pelos pais, que está a fazer lucro através de associações com determinadas empresas (como We Don’t Have Time de Rentzhog, da qual Greta publicamente se demarcou). Contudo, rumores destes são iniciados por figuras públicas de seriedade questionável, como Eduardo Bolsonaro e Donald Trump,  de entre negacionistas do aquecimento global, que o fazem apenas por princípio e, muitas vezes, interesse. Igualmente desinteressante é a acusação de hipocrisia ou a comparação entre Greta e Malala Yousafzai, a qual anda a circular na internet, pois Greta faz mais do que lhe é exigido, ao deslocar-se de comboio e barco, adotando uma alimentação vegan e espalhando o alerta perante as alterações climáticas, ou seja, lutando por aquilo em que acredita, à sua maneira e dentro das suas possibilidades.

Desta forma, escolho focar-me noutros aspetos que vão sendo apontados. Primeiro, os óbvios: Greta tem apenas 16 anos e encontra-se no espetro do autismo. Claro que são exatamente estes fatores que a dotam, a meu ver, do carisma que a impulsionou, pois explicam a sua determinação (obsessiva, claro, tendo sido diagnosticada também com síndrome obsessivo compulsivo e mutismo seletivo) e o seu idealismo. Para além disso, contribui igualmente, com certeza, para a sua facilidade em conquistar as audiências, o facto de não provir de um meio desfavorecido nem de um grupo minoritário, sendo, apesar da síndrome de  Asperger, uma figura com a qual as pessoas se identificam, sentindo-se incluídos no âmbito da causa que representa. 

Greta não é alheia à sua marca, publicitando-a de forma inteligente. Nunca esconde os seus diagnósticos. Aliás, usa-os em seu proveito, fruto possivelmente de uma longa batalha interior de aceitação própria, mas também demonstrando uma estratégia de marketing poderosa. Simultaneamente, mostra ter fortes capacidades, tanto cognitivas como de soft skills, algo que contribui para derrubar estereótipos associados a estes tipos de doenças. 

Neste contexto, é impossível não referir o contraste entre o seu aspeto físico e a sua capacidade discursiva, muito precoce para a sua idade. Como se insere na jovem geração Z das redes sociais, usa-as em seu proveito, estando presente em todas as maiores. A sua participação ativa no Twitter é de particular destaque, nomeadamente, o episódio em que utilizou o comentário irónico de Trump como sua biografia: “uma criança feliz, antecipando um futuro brilhante e maravilhoso”

De facto, como anteriormente insinuado, é também nas redes sociais que Greta tem de enfrentar os ataques de comentários negativos que advêm da sua popularidade: algo que pode ser especialmente nocivo por se tratar de uma criança, apesar de tudo. Por não deixar transparecer inocência ou jovialidade nas suas manifestações públicas, muitos esquecem ou fingem esquecer, quando comentam online, protegidos através da barreira virtual que separa todos os intervenientes nessa realidade paralela, que essas observações serão marcantes para o desenvolvimento de Greta e que, por muito que esta os consiga enervar com as suas ações, é apenas uma criança. A sua idade é, verdadeiramente, uma medalha com duas faces: demasiado baixa para lhe conferir autoridade, demasiado alta para a proteger perante a maldade dos haters.

De facto, Greta é também descrita como inexperiente e ingénua, devido à sua idade. Contudo, estes adjetivos proporcionam-lhe as suas armas mais importantes na batalha que trava, pois permitem-lhe agir com coragem, possivelmente, de forma inconsciente, não deixando, no entanto, de ser verdadeira. Ao contrário de uma influencer típica, Greta não se preocupa com futilidades, mostrando-se indignada, furiosa, zangada, sentimentos que transparecem nas expressões faciais icónicas, que tão facilmente são tornadas em memes virais e que são um atentado a normas de género. 

Por fim, é preciso sublinhar que Greta é problemática. Em primeiro lugar, no seu papel de ícone do movimento ambientalista, por simplificar e dramatizar os seus argumentos. Recita afirmações como “A crise climática já foi resolvida”, defendendo que as medidas necessárias para resolver a crise são conhecidas mas inexplicavelmente ainda por aplicar, enquanto apela ao sentimento de pânico, quando ameaça a extinção em massa. A crise climática é um assunto sério que deve ser ponderado cuidadosamente, no seu tempo devido, e as palavras de Greta não devem ser escritas como leis. Contudo, ninguém pode negar que é inteligente e eficaz: o tópico nunca mais foi ignorado. 

O que se passa é que a Greta nos assusta, nos inspira e nos fascina. Ficamos incrédulos perante a pessoa que é, perante o fenómeno que representa e a mensagem que transmite. E o que é certo, é que muita gente age em resposta. Mas Greta é, também, uma ameaça ao status quo e a muitas normas da sociedade, ou seja, é inconveniente. O que exige é demasiado radical para se poder abraçar, apesar de constituir um passo importante na criação de uma consciência e sensibilização coletiva perante o assunto. Missão cumprida, Greta.

É uma ameaça, pois revela o que só uma pessoa, ainda por cima uma menor e uma rapariga, pode iniciar. Basta ter a força de vontade e existir na altura certa. Greta é uma ameaça, pois revela que, se os jovens um dia decidissem agarrar-se às urnas e começar revoluções, seriam uma força imparável.

No fundo, o que nos devemos questionar é qual o impacto das ações de Greta. De facto, esta pequena menina sueca iniciou uma forte campanha, maioritariamente conduzida por jovens, a uma escala mundial e a uma rapidez nunca antes vista. Pode não ser, nem deve ser considerada, uma especialista ou uma autoridade, mas é certamente apaixonada e, se ouvirmos a sua voz, só teremos a ganhar.


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