Foi já há umas semanas que teve fulgor nas redes sociais a polémica em torno da mais recente música do Valete “BFF”.  A narrativa da música centra-se na traição amorosa por parte do melhor amigo e da namorada do protagonista, o que leva este último a uma explícita reação violenta e por fim fatal. 

Autoria: Francisco Nogueira


Nos dias seguintes à música ter sido lançada o ruído que se fez ouvir nas redes sociais dividiu quem considerava a violência no vídeo como sendo desnecessária e uma banalização da violência doméstica, e as pessoas que defendiam tratar-se apenas de uma obra artística como qualquer outra, com direito a ser expressa livremente e que, nas palavras de Valete, representava apenas uma “boa história”.

No entanto, apesar de ter uma certa vontade em opinar sobre esta discussão acesa, não é sobre isso que acho que é mais relevante refletir. As polémicas resolvidas na internet acabam por ser apenas um grande novelo de opiniões. Apesar disso, toda esta discussão levantou uma série de questões, nas quais dei por mim a pensar sistematicamente nos dias seguintes. 

Primeiro de tudo comecei por pensar em qual seria o limite para a legitimidade de qualquer conteúdo artístico, seja lá o que esse termo de facto signifique, para representar ideias ou valores que são opostos àqueles que pertencem ao status quo. Isso levou-me a um objetivo ainda maior que consistia em entender quais seriam ou deveriam ser então os objetivos da Arte. Será que toda a Arte tem de ter um significado, algo que preencha a demanda cognitiva de muitas pessoas? Será que a arte deve ser escandalosa de forma a suscitar sentimentos fortes no seu público? Ou será que tentar definir aquilo que a arte deve ou não ser é um exercício inútil resultante apenas de um debate intelectual que para além de ter pouco interesse prático, torna-se também limitador daquilo que um indivíduo tem vontade de criar? O que é a arte na verdade? Pois é, todos temos uma resposta a essas perguntas, mas são todas elas tão diferentes umas das outras.

Numa tentativa de contextualizar a Arte o mais resumidamente possível é importante entender de que formas ela surgiu e se desenvolveu. Sabemos que a chamada criação artística é algo que tem acompanhado o Ser Humano na sua evolução já há milhares de anos, e que num trajeto harmonioso tem também evoluído em complexidade, variedade e abstração. Porém estamos ainda muito longe de perceber de onde vem a necessidade Humana de criar e muitas vezes, presos às nossas ideias bem assentes daquilo que o mundo deve ser, tornamo-nos inflexíveis às possibilidades e às utilidades ou não utilidades que a criação artística pode ter.

 A maioria de nós tem toda a facilidade do mundo em reconhecer o teto da Capela Sistina pintado por Michelangelo como sendo sem dúvida alguma uma obra de arte. Esta é uma obra que junta em si a técnica, a beleza, a harmonia, tudo aquilo que estamos normalmente de acordo quando é preciso reconhecer uma obra de arte. O mesmo acontece quando ouvimos música erudita, que se insere numa forma de expressão artística diferente da anterior. Talvez seja para nós mais difícil, no entanto, reconhecer uma obra de Basquiat como sendo uma obra artística, ou a famosa música de John Cage “4´33” por exemplo. Temos aqui uma situação em que os padrões considerados importantes nos primeiros exemplos deixam de ser o fator artístico. Muitos dirão que estas obras não têm nenhuma das qualidades anteriores e ainda se opõem a elas de alguma forma. Elas diferem do nosso típico conceito de harmonia e estética e muitas vezes sentimo-nos tentados àquele típico comentário “o meu irmão mais novo também fazia isso!”, no entanto sabemos que Basquiat é considerado um dos artistas mais influentes do final do século XX e que as obras de John Cage também trouxeram uma nova e interessante perspetiva à música, almejando provar que o silêncio e o som não passam apenas de perceções diferentes de uma mesma coisa.

O mundo artístico é, como já disse, algo difícil de compreender para muitos de nós. Acontece que com esta diversificação artística que se deu ao longo da História e que acompanhou também a diversificação do pensamento Humano, apareceram as mais variadas formas de expressão que foram sendo anexadas ao leque de “coisas” a que se pode chamar Arte. Esta anexação raramente foi um acontecimento amigável, mas sim fruto de muita discussão entre dois polos maioritários que se têm repetido ao longo da História. O primeiro polo é uma elite comumente chamada “velha guarda”, que defende as bases artísticas estabelecidas e assentes ao longo da sua vida, enquanto o segundo polo é composto por um conjunto de pessoas normalmente de uma faixa etária muito mais jovem e, talvez por isso, mais dada a vontades de mudança e que tenta legitimar uma nova forma de produzir Arte. No curso do tempo o primeiro polo acaba por ser substituído pelo segundo, deixando assim espaço para o surgimento de um novo polo vanguardista, permitindo assim a regeneração do pensamento artístico.

Temos o exemplo de muitos artistas do mundo da música cujo impacto foi tremendo, como por exemplo os Beatles, os Nirvana ou os NWA, que no seu percurso alteraram a perspetiva daquilo que era aceite como legítimo no mundo artístico do seu tempo e se propuseram a fazer algo em moldes diferentes. 

Volto a colocar a questão em cima da mesa: o que legitimará uma certa obra como sendo Arte ou como sendo alheia a essa classificação, de certa forma elitista. Uma música que retrata um acontecimento real presente na vida de milhares de pessoas não terá de ser interpretada como um incentivo a qualquer coisa, pode ser em vez disso, uma reflexão sobre um problema ou até apenas um pedaço de storytelling. Talvez seja possível que nós, enquanto ávidos consumidores de todo o tipo de conteúdo, estejamos, mais do que nunca, inflexíveis e esperemos mais que aquilo que consumimos esteja dentro dos nossos conformes.

A mim parece-me que é cada vez maior a urgência em refletirmos sobre a nossa própria forma de olhar e de interpretar as coisas. É importante sermos flexíveis, nunca nos deixarmos levar pelo primeiro pensamento que nos vem à cabeça, mas refletir sobre isso e tentar abordar as questões com mais profundidade e conhecer mais perspetivas. O videoclip do Valete fez-me pensar que na internet os consumidores de conteúdo se deixam levar cada vez mais pelas suas emoções, e facilmente se dispõem a aceitar lados com base nisso. No final, toda a discussão sobre os possíveis objetivos de uma obra acaba por ser apenas um confronto entre as frustrações e preconceitos dos seus participantes, sugiro então que nos deixemos de caprichos e dediquemos a nossa energia a problemas mais sérios.

Leave a Reply