Este ano letivo abriram no Instituto Superior Técnico 275 vagas para alunos de contingentes internacionais. Como é que a sua experiência universitária difere da de um estudante português? Embora a maioria destes estudantes venha de países de língua oficial portuguesa, haverá desafios a superar que mesmo a partilha de uma língua não consiga colmatar? Para descobrir, nada melhor do que falar cara-a-cara com alunos do contingente internacional e perguntar-lhes sobre as suas experiências de vida na nossa faculdade.

Autoria: João Gonçalves


A vantagem de estudar numa faculdade com muita gente e num país conhecido pela sua hospitalidade é ser sempre possível encontrar pessoas com gostos semelhantes e estabelecer novas amizades. Luís Modesto, oriundo de Cabo Verde e atualmente inscrito no curso de Engenharia Física Tecnológica, salienta exatamente isso sobre a sua experiência universitária, revelando: “não tive dificuldade em fazer amigos”. Nyvenn Castro, de Angola e também de Física, partilha o sentimento, afirmando que não teve dificuldades em conhecer rapidamente quase toda a gente do seu curso. No entanto, na sua opinião, nota-se uma tendência geral em relação aos estudantes internacionais (que o próprio Nyvenn verifica nalguns amigos que vieram consigo de Angola para Lisboa) para ficarem “muito cada um nos seus grupos, cada um nos seus meios. Tentam muito não se misturar”. Perante uma situação em que nos vejamos forçados a mudar radicalmente de ambiente é natural que nos apeguemos àqueles que se encontram na mesma situação que nós, pelo que esta tendência é compreensível, embora possa criar inadvertidamente a longo prazo um sentimento de isolamento.

Outro fator que pode dificultar a vivência destes alunos é a distância da família e da terra-natal. Este problema, evidentemente, não é exclusivo de estudantes estrangeiros: grande parte dos alunos portugueses do Técnico mora fora de Lisboa. A necessidade de estudar, fazer trabalhos de grupo e entregar projetos continuamente ao longo do semestre faz com que as idas a casa sejam, para muitos de nós, reduzidas  e espaçadas. O fator monetário também contribui para esta tendência, e isso verifica-se com ainda mais intensidade para os alunos vindos de contingentes internacionais: o elevado preço de um bilhete de avião faz com que viagens frequentes se tornem inviáveis, especialmente se considerarmos que as propinas para estes alunos são muito mais elevadas (7000€ por semestre contra os habituais 871.52€ para o contingente normal) e nem todos têm bolsas.

Por outro lado, a exigência do ensino no Técnico também é quase sempre um desafio para a maioria dos novos alunos e isso pode verificar-se com particular intensidade em estudantes vindos de outros países, devido às diferenças entre programas escolares: se alguns professores do ensino superior criticam os nossos ensinos básico e secundário por não fornecerem aos alunos as ferramentas de que precisarão na universidade, o que dizer da educação recebida por alunos ensinados em países diferentes e com diferentes visões e prioridades em relação ao ensino? De uma maneira geral, Nyvenn confirma que estes alunos chegam “muito menos bem preparados”. Na sua opinião, em Angola o ensino incide sobre tópicos mais específicos; na área da Matemática em concreto, o foco está em decorar métodos particulares de resolver problemas e não em ensinar a pensar de maneira autónoma e mais abrangente, o que dificulta a abordagem a situações novas e mais desafiantes. Já Luís discorda e afirma que, apesar da diferença entre os países, de uma maneira geral “o programa acaba por ser mais ou menos a mesma coisa” e que sentiu ter sido bem preparado com as ferramentas necessárias para começar o curso, embora haja aspetos que os alunos em Portugal aprendem no secundário e que os alunos em Cabo Verde não (como números complexos) e vice-versa.

Silvestre Alves Scott, aluno de Matemática Aplicada e Computação, vindo da ilha do Fogo, Cabo Verde, também se queixa da falta de preparação que o ensino cabo-verdiano dá aos seus alunos, o qual descreve como “muito mais fraco do que o português”. Este problema é ainda exacerbado pelos obstáculos burocráticos que se colocam a um aluno de contingente internacional: o pagamento de bolsas, por exemplo, que é da responsabilidade do governo português, é muitas vezes feito com atraso, o que faz com que os alunos de outros países só se consigam inscrever no Técnico já depois do início do semestre; os vistos de residência também podem ser problemáticos e pelo mesmo motivo: a demora dos serviços portugueses em aprová-los também resulta, com frequência, em atrasos na chegada a Lisboa destes alunos. Todos estes fatores acabam por contribuir para que alunos como o Silvestre sintam que começam o ano letivo “um passo atrás dos alunos que estudam cá”, o que é evidentemente frustrante.

O que pode então fazer-se para combater estes problemas? De acordo com Nyvenn, a solução pode até já existir e estar a ser ignorada. “Os que vêm de fora já têm o NAPE [Núcleo de Apoio ao Estudante] e o NDA [Núcleo de Desenvolvimento Académico]”; o Técnico, na sua opinião, “já tem assim formas de nos apoiar, desde que estejamos preparados para tomar a iniciativa e ‘procurar por elas’”. No entanto, Nyvenn admite também a possibilidade de  os serviços atualmente em vigor não serem suficientes e de que um sistema organizado de explicações, fora dos habituais horários de dúvidas e porventura com professores freelancer, pudesse vir a nutrir um maior efeito (embora tal medida seja, evidentemente, de difícil implementação).

É neste clima que surge o Núcleo de Estudantes Africanos do Instituto Superior Técnico. Este grupo estudantil, oficialmente aprovado pela última Assembleia Geral de Alunos, pretende dar apoio aos novos estudantes que mergulham de cabeça numa vida nova num país e continente desconhecidos. Silvestre, um dos membros fundadores do núcleo, explica que o objetivo é fornecer uma ajuda que incida tanto sobre o panorama pessoal e social como académico, permitindo aos novos alunos de contingente internacional ter desde o início do seu percurso universitário contacto com colegas que passaram pela mesma situação que estão a viver e que os possam acolher, aconselhar e providenciar explicações, caso disso tenham necessidade. No entanto, e apesar do nome indiciar um maior foco nos estudantes vindos de países africanos, Silvestre reforça que as portas do NEAIST estarão abertas a todas as pessoas, independentemente de etnia ou nacionalidade.

As melhores soluções para os problemas enfrentados por alunos talvez tenham de partir precisamente dos próprios alunos. É certo que há aspetos nos quais os órgãos de apoio social e académico do Técnico são indispensáveis e é também verdade que o próprio governo poderia fazer um esforço maior para diminuir os problemas e atrasos derivados de demorados processos burocráticos (dando, por exemplo, prioridade aos vistos de residência para alunos, garantindo assim que estavam prontos aquando do início do ano letivo). No entanto, às vezes aquilo de que mais precisamos é de alguém que tenha passado pelas mesmas dificuldades que nós, a quem possamos pedir ajuda ou com quem possamos simplesmente desabafar. Nesse sentido, o Núcleo de Estudantes Africanos do Instituto Superior Técnico pode vir a ser uma excelente adição à nossa comunidade estudantil.

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