Autoria: Madalena Bento (LEBiol)
Entre o que lhes transmitem, o que ouvem nos corredores e o que leem no grupo do curso, os delegados procuram sempre conseguir receber e transmitir, da melhor forma, a opinião de todos os alunos. Todavia, esta tarefa nem sempre é fácil. Deste modo, o Diferencial procurou perceber quais as principais funções e desafios deste papel junto de dois alunos que o desempenham.
Tiago Sousa, estudante e delegado de terceiro ano da licenciatura em Engenharia Biológica (LEBiol), candidatou-se, há 2 anos, a delegado, pela primeira vez, por considerar que este papel lhe permitiria desenvolver competências essenciais, como a liderança e a comunicação. Para além disso, reconhece que é um cargo de extrema importância, visto que os delegados “desempenham um papel fulcral na representação dos estudantes, sendo porta-vozes de todos os seus colegas junto dos Docentes, Coordenadores de Curso e demais Órgãos do Técnico, como é exemplo o Conselho Pedagógico.”[1]
Luísa Marcelino, também delegada de terceiro ano, mas da Licenciatura em Matemática Aplicada e Computação (LMAC), concorreu a esta função no seu segundo ano, depois de se conseguir adaptar ao ensino superior. Fê-lo por já ter tido alguma experiência durante o secundário, por gostar da interação com os professores e por considerar “interessante também poder resolver os problemas dos nossos colegas de uma forma mais fácil”.
O delegado de LEBiol reconhece a facilidade em comunicar com os docentes para marcar e alterar avaliações, realçando ainda a disponibilidade que a maioria demonstra perante as suas sugestões de melhoria. Destaca também a importância que o relatório de delegado acarreta, perante a impossibilidade de os alunos poderem dar um feedback mais subjetivo nos inquéritos de Qualidade das Unidades Curriculares (QUC).
Durante a conversa com o Tiago e a Luísa, foi possível compreender melhor em que consiste o relatório de delegado, desconhecido pela maioria dos alunos. Este documento deve ser preenchido pelos delegados, após a publicação dos resultados dos QUC, e permite destacar, para cada Unidade Curricular (UC), os respetivos pontos fortes e fracos, bem como apontar sugestões de melhorias. Adicionalmente, sempre que um determinado parâmetro tem uma classificação inferior a 6, numa escala de 1 a 9, os delegados devem apresentar uma justificação desta ter sido tão baixa. No entanto, nem sempre é possível obter estas justificações por parte dos alunos. Luísa e Tiago defendem que isto acontece pelo facto dos resultados dos QUC serem apresentados muitas vezes em épocas com um grande número de avaliações ou muito depois de as aulas terem terminado, o que faz com que se perca muita informação. “As pessoas já não se lembram bem do que é que aconteceu”, afirma Luísa. Esta falta de resposta acaba por dificultar o trabalho dos delegados, visto que em UC opcionais, por exemplo, é essencial conseguir obter a opinião de um grupo menor de alunos, para que se possa dar um feedback o mais objetivo e representativo possível.
Perante estes testemunhos, fica a dúvida se o modelo atual destes inquéritos deveria ser reformulado, designadamente através da possibilidade de os alunos conseguirem deixar a sua opinião através de respostas de “escrita livre”. A divulgação anónima destas respostas aos delegados permitir-lhes-ia percecionar aquilo que os alunos sentem de uma forma mais eficaz.
Para combater o modelo de resposta atual aos QUC, já existem plataformas como a UnifeedBack, onde os alunos conseguem dar a sua opinião e uma avaliação geral à UC. Ao entrevistar os delegados de LMAC e LEBiol, ambos tornaram evidente que esta plataforma poderia auxiliar no preenchimento dos relatórios. Para além disso, a apresentação pública de diferentes opiniões é sempre útil, pois permite ter uma perspetiva mais abrangente de cada disciplina. Neste sentido, Luísa afirma que “ quanto mais perspetivas, melhor”, por ter a noção de que “às vezes, mesmo sendo nós delegados […] podemos deixar passar algumas coisas”. Adicionalmente, Tiago Sousa ainda dá um exemplo de outra alternativa usada na sua UC de Algoritmos e Modelação Computacional (AMC). Esta consistiu na partilha de formulário através do qual foi possível dar feedback das aulas de forma anónima. Este tipo de prática auxilia o corpo docente a alterar determinados aspetos enquanto a UC ainda está a decorrer, de forma a que a experiência naquele ano curricular seja melhor.
Os delegados tiveram um papel fundamental na mudança da organização das licenciaturas e mestrados, que decorreram da revisão dos Princípios Enquadradores para a Reestruturação dos Cursos de 1º e 2º ciclo do Instituto Superior Técnico (PERCIST). As alterações a este documento, aplicáveis já para o ano letivo de 2026/27, permitirão um aumento do número máximo de 2 para 5 de UC com funcionamento semestral.
Durante este processo de reestruturação, os delegados tiveram a responsabilidade de representar a vontade dos alunos. Para tal, procuraram a opinião geral dos estudantes, ou até perceber através de testemunhos de alunos mais velhos, que tiveram a experiência do regime semestral, para quais das UC seria mais adequado reverter as medidas implementadas no ano letivo de 2021/2022.
No entanto, os delegados revelaram que houve dificuldade de recolha de opiniões de alguns alunos, uma vez que, à semelhança do que aconteceu nos relatórios, apesar de terem sido enviados formulários para os grupos dos diferentes cursos, não foram obtidas muitas respostas. A falta das mesmas pode estar associada ao facto dos formulários terem sido enviados numa época em que estava “muita coisa a acontecer e depois passou por muitas pessoas, assim, um bocado ao lado”, afirma Tiago. Como tal, ambos afirmam que esta não foi a melhor forma de obter a opinião e que deveria ter havido, por exemplo, uma reunião para o apuramento da opinião geral e até para uma troca aberta de ideias e sugestões. Adicionalmente, os delegados conseguiram perceber que, na sua maioria, os estudantes do IST demonstram preocupação pelo facto de ainda existirem algumas UC onde não foram especificados os novos critérios de avaliação, mas deixaram claro que preferem a avaliação contínua, a fim de evitar 6 exames no final de cada semestre.
Apesar dos pontos menos positivos, os delegados reconhecem que, durante todo este processo, conseguiram transmitir as opiniões dos alunos.“Nós tivemos até várias reuniões com a coordenadora do departamento, com o presidente do departamento e com professores também”, afirma Luísa Marcelino, referindo também que, de um modo geral, este processo “correu bastante bem”.
Para além das responsabilidades que este papel acarreta, o mesmo também proporciona o desenvolvimento de algumas competências. Tiago Sousa, destaca que desenvolveu, ademais das mais óbvias como organização e gestão de tempo, a capacidade de “ter conversas difíceis” e de manter a neutralidade, defendendo a opinião da generalidade dos alunos e não, somente, a sua. Adicionalmente, esta experiência ajudou-o a aprender alguns métodos que o auxiliam na sua tarefa enquanto delegado e que consequentemente, beneficiam os alunos.
Apesar de tudo o que este cargo possa proporcionar ao desenvolvimento pessoal e académico, verificou-se que em 35 dos 53 programas de licenciatura, mestrado e mestrado integrado do Técnico, não existiu, em pelo menos um dos anos, qualquer candidato a delegado na 1ª volta eleitoral.
Tiago, defende que, na maioria dos casos, este problema se coloca, principalmente nos primeiros anos de cada ciclo e considera que a existência de uma apresentação feita por parte do Conselho Pedagógico junto dos novos alunos poderia ser um complemento às já feitas pelos delegados dos outros anos. No entanto, reconhece que tal poderá não ser possível devido à pouca disponibilidade dos membros deste órgão. Luísa tem uma perspetiva um pouco diferente, considerando que o maior problema prende-se com “a falta de informação sobre o que é que nós fazemos”, uma vez que este papel se encontra descrito no regulamento de forma vaga. O melhoramento da divulgação das tarefas do delegado poderá ser um passo importante para destacar este papel, cativar o interesse de mais alunos e facilitar a articulação entre os estudantes e o corpo docente, contribuindo para a melhoria do ensino.
Referências:
[1] Regulamento do Corpo de Delegados do Instituto Superior Técnico. (Acedido pela última vez a 19/11/2025)




