Apesar dos riscos abordados nos artigos anteriores, a Inteligência Artificial também apresenta possibilidades favoráveis em prol do bem comum social. A presente redação pretende dar a conhecer aplicações positivas desta ferramenta, que funcionam como exemplos para os futuros passos na área.

Autoria: João Valério, MECD

A Inteligência Artificial (AI), quando utilizada para o bem comum social e científico, apresenta capacidades para operar tremendas transformações positivas na nossa realidade presente.

Atualmente, inúmeras empresas tiram partido das suas funcionalidades técnicas e desenvolvem projetos altamente benéficos para os cidadãos, impulsionando positivamente o progresso da humanidade e da ciência. As suas áreas de aplicação são diversificadas, desde a indústria automóvel à saúde, no entanto, o valor destas ações reside, essencialmente, no tipo de impacto social capaz de ser efetivado.

Por norma, este tipo de iniciativa insere-se na categoria da Inteligência Colaborativa [1], uma vez que o seu propósito é “(…) ajudar os seres humanos a expandir as suas capacidades (…)” ou, por outras palavras, ajudar os seres humanos a superar as suas próprias limitações físicas ou mentais, através de uma interação interdependente homem-máquina. De um modo geral, a Inteligência Colaborativa apresenta a possibilidade para operar, individualmente ou em simultaneidade, nos seguintes formatos: amplificar as nossas capacidades cognitivas, interagir com clientes ou funcionários e incorporar competências humanas. De seguida, descrevem-se alguns projetos virtuosos de grande valor social, nas diferentes vertentes referidas.

A Brain Power, uma empresa americana que tem como missão “Criar produtos e serviços que beneficiem pessoas com desafios neurais invisíveis (…)”, desenvolveu óculos inteligentes, por forma a ajudar pessoas com autismo, amplificando assim as suas capacidades. Esta tecnologia auxilia na compreensão do meio social envolvente, uma dificuldade limitadora que as pessoas com esta patologia possuem. Os utilizadores deste dispositivo, semelhante aos Google Glass, veem e ouvem opiniões especiais orientadas para a situação em que se encontram – como, por exemplo, explicações das expressões faciais das emoções, indicações de quando olhar para as pessoas, e até mesmo feedback sobre o próprio estado emocional do utilizador dos óculos (KLEBER, Sophie, 2018). Deste modo, o nível de desfasamento social que estas pessoas presenciam diminui abruptamente, permitindo que, em certa parte, o efeito da sua perturbação seja mitigado.

Na interação, o aumento da compreensão emocional ao nível computacional permite que os computadores possam atuar enquanto intervenientes sociais. Um dos ramos passíveis de atenção é o da saúde mental, na qual “Estas aplicações visam treinar os utilizadores em situações de crise, recorrendo a técnicas da terapia comportamental.” Como exemplos, existem a Ellie, que ajuda soldados com Perturbação de Stress Pós-Traumático, e o Karim, no auxílio aos refugiados sírios na superação de traumas. Num espetro ligeiramente diferente, este tipo de intervenção também pode ser utilizado no campo automóvel, promovendo a segurança dos cidadãos. A AutoEmotive, que é a Inteligência Artificial automóvel da Affectiva, e a Ford estão a apressar-se para obterem software automóvel emocional pronto a ser comercializado, capaz de detetar emoções humanas como raiva ou desatenção e de agir em conformidade, assumindo o controlo da viatura ou imobilizando-a, evitando assim acidentes ou atos de agressividade na estrada (KLEBER, Sophie, 2018).

Para além dos exemplos mencionados, a AI pode ainda incorporar competências humanas. A economia digital moderna implica que os bancos sejam ativos no combate à fraude, por forma a protegerem-se a si mesmos e, principalmente, aos seus clientes. Esta incorporação tem permitido que os bancos atuem agilmente em resposta às inúmeras ameaças que surgem diariamente. O investimento da Paypal em AI compensou amplamente: em 2016 a taxa de fraude caiu para 0.32 por cento da sua receita, menos de um quarto da média global da indústria (POLSON, Nick; SCOTT, James, 2020). Um sistema de AI diferente usado pelo Danske Bank melhorou a sua taxa de deteção de fraudes em 50% e diminuiu os falsos positivos em 60% (WILSON, James; DAUGHERTY, Paul, 2018).

Na saúde, a sua aplicação é extremamente vasta. Empresas e investigadores estão a trabalhar arduamente numa nova geração de tecnologias baseadas em AI que aguardam uma oportunidade, prontas para ajudar médicos e enfermeiros a realizarem os seus trabalhos de formas mais eficientes (POLSON, Nick; SCOTT, James, 2020). A equipa da Dra. Katherine Heller em Duke, por exemplo, aliou-se a médicos para desenvolver um sistema que pode sinalizar sinais de iminente doença renal crónica; outros grupos de investigação inventaram sistemas de alerta precoce similares para outras afeções – a paragem cardíaca, a depressão, o sofrimento fetal durante o parto e as infeções adquiridas em ambiente hospitalar (POLSON, Nick; SCOTT, James, 2020). Em breve, outros avanços igualmente impressionantes na tecnologia de AI poderão vir a revolucionar todas as áreas da medicina (POLSON, Nick; SCOTT, James, 2020) – da radiologia e dermatologia, a equipamentos médicos inteligentes e medicina remota.

Em virtude dos factos mencionados, as potencialidades da Inteligência Artificial permitem operar de forma verdadeiramente positiva, social e cientificamente, em que os demais projetos realizados até ao momento servem de exemplo e inspiração para o futuro caminho a percorrer.


Referências:

[1] Na Inteligência Colaborativa, os humanos e a AI aprimoram mutuamente os pontos fortes de cada um: a liderança, o trabalho em equipa, a criatividade, e as aptidões sociais do Homem; e a velocidade, a escalabilidade e as capacidades quantitativas da Inteligência Artificial (WILSON, James; DAUGHERTY, Paul, 2018).

Bibliografia:

  • DAVENPORT, Thomas; RONANKI, Rajeev (2018) – Artificial Intelligence for the Real World. Massachusetts: Harvard Business Review.
  • KLEBER, Sophie (2018) – 3 Ways AI Is Getting More Emotional. Massachusetts: Harvard Business Review.
  • WILSON, James; DAUGHERTY, Paul (2018) – Collaborative Intelligence: Humans and AI Are Joining Forces. Massachusetts: Harvard Business Review.
  • OLIVEIRA, Arlindo (2019) – Mentes Digitais: A Ciência Redefinindo a Humanidade. 3a ed. Lisboa: IST PRESS.
  • KPMG (2019) – Global Banking Fraud Survey. Suíça.
  • POLSON, Nick; SCOTT, James (2020) – Inteligência Artificial. 1ª ed. Lisboa: Vogais. Pág.220, 253-254.

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