Autoria: Ana Alves (LEAer)
De 9 a 11 de fevereiro, no pavilhão Civil do Campus Alameda, realizou-se uma Winter School da Space Resources Academy (SRA), que abordou a temática da extração de recursos espaciais e contou com palestras, demonstrações e debates. Como tal, o Diferencial esteve à conversa com dois alunos de Engenharia de Minas e Recursos Energéticos envolvidos na organização deste evento, Miguel Albino e Santiago Bilbao, que explicaram como foi organizar uma Winter School e os desafios que esta área emergente enfrenta.
O que motivou a organização deste evento e quais foram os seus objetivos?
A Agência Espacial Portuguesa abriu um concurso para financiar quatro projetos de Winter School, explica Miguel, que decidiu apresentar uma proposta para ver se “colava”, e ficou surpreendido quando foram “bem cotados” e receberam financiamento.
A ideia “veio com um propósito muito específico”, pois, atualmente, os profissionais no ramo dos recursos espaciais em Portugal têm carreiras muito viradas para a investigação, pelo que o objetivo foi “criar um ponto de partilha de conhecimento e tentar atrair pessoas para a área”, num âmbito mais prático.
Quais foram os critérios para a escolha dos oradores convidados?
Santiago descreve que tentaram “escolher pessoas que são chave na área”, não necessariamente por serem da indústria ou da academia, mas pela coletividade que trazem. Conseguiram ter “3 continentes representados”, esforçando-se para trazer, “neste momento, o que há de melhor na indústria espacial no que toca aos recursos minerais”.
Alguns oradores, a nível nacional, foram pessoas que estão ou já estiveram envolvidas com o Técnico, como Pedro Pina (Universidade de Coimbra), Zita Martins (IST) e Tiago Silva (Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear – IST). Já a nível internacional, aproveitaram “a rede de contactos” que tinham, o que “facilitou o processo de chegar às pessoas”. Neste âmbito, contaram com a presença de Carlos Espejel (Space RS – empresa de consultoria e tecnologia sediada no Luxemburgo especializada em recursos, tanto terrestres como espaciais), Emmanouil Anyfantakis (ESRIC – Centro Europeu de Inovação em Recursos Espaciais, no Luxemburgo), Clive Neal (University of Notre Dame), Joshua Rasera (Imperial College London) e Kostas Papangelis (Mytilineos S.A. – empresa industrial sediada na Grécia, especializada em energia, mineração e metalurgia). O balanço de Santiago é bastante positivo, uma vez que ao falar com alguns dos oradores percebeu que também estes estavam “fascinados” com o evento e com “vontade de mais”.


Duas das palestras: Emmanouil Anyfantakis (à esquerda) e Zita Martins (à direita) | Fonte: Equipa da SRA
Quais foram os principais pontos de consenso nas palestras e nos debates?
O evento mostrou que se trata de uma “área embrionária” e que a “população geral estará menos ciente do quão avançado está, mas quem está dentro sabe que ainda falta muito para conseguir fazer um projeto”, responde Miguel, pois “quando se fala de recursos espaciais, a maior parte das pessoas acha que isto é ficção científica”.
Assim, os oradores concordam que falta “interconectividade” entre tecnologias que já estão desenvolvidas, isto é, criar um sistema integrado no qual é preciso “a pessoa da escavação saber como alimentar a máquina seguinte, a máquina seguinte saber o que dá à que vem depois e, no final, haver um produto”.
Qual foi o momento que mais expectativas superou ou que acrescentou uma nova perspetiva sobre esta área?
Para Santiago, foi “tudo um bocadinhoincremental”, pois admite ter entrado neste projeto como uma pessoa um pouco “cética em relação à área no sentido de aplicabilidade nas próximas décadas”. Por outro lado, para Miguel, a palestra de Carlos Espejel teve particular destaque, pois mostrou “que isto já é um domínio técnico e não só um domínio especulativo”, na medida em que falou sobre “pensar economicamente numa área que ainda está em desenvolvimento”.
No entanto, ambos orgulham-se do debate final: “Foi extremamente interessante e produtivo”. Neste momento, marcaram presença três pessoas de backgrounds totalmente diferentes: Paulo Caetano (Ordem dos Engenheiros), Joan Alabart (Agência Espacial Portuguesa) e Domingos Fernandes (Ispace), que contribuíram para conferir “multidisciplinaridade” ao debate.

Também é importante mencionar os convívios que ocorreram ao longo dos três dias e que permitiram um contacto direto com os oradores. “É vantajoso as pessoas terem o ‘à vontade’ para acabar uma palestra e ir falar com o palestrante, porque é isso que acontece nos congressos e que às vezes falta nos eventos académicos no nosso país” considera Miguel. “É criado muito uma diferença de patamar entre o palestrante e a audiência cá em Portugal”, acrescenta Santiago, pelo que a Winter School proporcionou também um ambiente onde essa diferença pudesse ser reduzida.
Passando às atividades mais práticas, tiveram uma tech demo, uma entrevista ao vivo e um workshop: de que forma contribuíram para o envolvimento dos participantes?
A demonstração (tech demo) teve o objetivo de os participantes poderem “ver o material nas mãos”, explica Miguel, e por material refere-se ao simulante de rególito lunar, fornecido pela Hispansion, um dos patrocinadores do evento. Foram feitos ensaios para comparar o tamanho das partículas do rególito lunar com as da areia da praia, tendo-se também analisado oângulo de repouso dos dois materiais. “Não queríamos fazer um evento sobre recursos espaciais sem estar a mostrar qualquer coisa”, pois, em termos de formação, é importante “mexer, comparar, ver métodos de ensaio”.


Tech demo: ensaio (à esquerda) e pegadas no simulante (à direita) | Fonte: Equipa da SRA
Quanto à live interview a António Sampaio (Instituto Pedro Nunes), “era suposto ser um debate para falar sobre a parte da sociedade”, mas, devido a um imprevisto, teve de ser adaptada para entrevista, mantendo a essência de “quebrar um bocadinho o esquema”, ou seja, fazer uma pausa das palestras e aproveitar alguém na área dos serviços para abordar o pilar social que também caracteriza esta área.

Falando sobre o workshop, este consistiu num desafio que foi lançado a todos os participantes: durante o evento, deveriam desenvolver, em pares, um projeto que servisse de solução a um problema que encontrassem na cadeia de valores da extração de recursos espaciais. No terceiro dia, teriam de apresentar a sua ideia num pitch de 3 minutos para um grupo de jurados, formado por pessoas da área. O melhor projeto receberia como prémio bilhetes de entrada na Space Resources Week, no Luxemburgo, com tudo pago. A ideia para esta atividade veio precisamente da Space Resources Week, explica Miguel, surgindo como uma melhoria de um workshop que realizou lá.
Já há planos para mais iniciativas deste género?
Quanto à “Portuguese Space Resources Academy”, Santiago explica que não pretendem parar por aqui. “O objetivo mínimo é realizar outra Winter School para o ano e assim sucessivamente.” Porém, o ideal seria “fazer duas sessões por ano: uma no verão e outra no inverno, dentro dos mesmos moldes”.
Além disso, no âmbito de tornar a SRA um evento independente do Técnico e vinculado a um órgão específico para o efeito, nasceu o projeto da INRE (Iniciativa Nacional de Recursos Espaciais). Este projeto surge com a ideia de “congregar, seja pessoas que têm interesse, estudantes, investigadores que já fazem trabalho na área, de modo a criarem parcerias”, descreve Miguel.
Assim, o papel da INRE envolve “transitar da investigação para a indústria”, que é um marco necessário para a expansão da atividade de recursos espaciais. “Em Portugal, existe a possibilidade de apanhar esta área no início”, criando uma iniciativa que junta pessoas de todo o país. Por outras palavras, a ambição é “criar uma ESRIC portuguesa”, que permita financiar teses e projetos e ter laboratórios específicos.
Equipa de organização e patrocinadores
Como é de esperar, um evento deste calibre dificilmente seria organizado por apenas duas pessoas. Deste modo, além de Miguel Albino e Santiago Bilbao, a equipa de organização da SRA incluiu os seguintes alunos do IST: Lara Leite, Inês Veiga, Mariana Laureano, Fábio Marques, Catalin Calin e Henrique Graça.
Quanto a patrocinadores, a SRA contou com o apoio de: Agência Espacial Portuguesa, ESRIC, DER (Departamento de Engenharia de Recursos Minerais e Energéticos), Hispansion, NUMIST (Núcleo de Minas do Instituto Superior Técnico) e CERENA (Centro de Recursos Naturais e Ambiente).




