Uma nova etapa, um novo estabelecimento de ensino, uma nova rotina e, para muitos, uma nova cidade, uma nova casa. O desconhecido é assustador, mas a estreia no percurso académico no Instituto Superior Técnico não tem de ser um pesadelo.

Autoria: Carolina Pereira, MEIC

Foi numa manhã de setembro de 2018, ainda em pijama, que corri para o computador para ver o email no qual estava o resultado da minha candidatura ao ensino superior. Foi com felicidade e alívio que vi que tinha ficado colocada na minha primeira opção, Licenciatura em Engenharia Informática e de Computadores no Instituto Superior Técnico. Durante bastante tempo, aquela era a única frase que conseguia construir usando as expressões “felicidade”, “alívio” e “Instituto Superior Técnico” em conjunto. 

Bastaram duas semanas de aulas para levar qualquer alívio e felicidade acerca do ensino superior. Os primeiros sintomas surgiram logo no dia das inscrições, talvez a primeira vez em que levei uma verdadeira overdose de informação. Lembro-me de no final desse dia, quando me sentei no autocarro de regresso a casa, parar para pensar e questionar no que é que eu me tinha metido. Nunca tinha falado com tantos bancos, nunca tinha visto tanta gente a tentar convencer-me a me juntar a grupos estudantis, não estava sequer habituada a tamanho frenesim de manhã à noite. Senti-me esmagada, um sentimento partilhado por muitos dos meus colegas. Durante os dias que se seguiram, tentei convencer-me a mim mesma de que conseguia organizar a vida e que não ia ser assim tão mau. Afinal, no dia das inscrições já tinha conhecido uma boa parte dos espaços e recursos essenciais para sobreviver no Instituto Superior Técnico, apesar de, como muitos de nós, não fazer ideia para quê que serviam metade dos núcleos e nomes escritos em panfletos.

Chegou o primeiro dia de aulas. Finalmente, fiquei a saber o que são aulas numa faculdade. O meu horário era longe de favorável para mim, especialmente porque faço todos os dias cerca de uma hora de viagem de autocarro mais o percurso de metro, o que levava a poucas horas de sono e ter de acordar de madrugada para apanhar o autocarro. A adicionar à pouca disposição que sentia logo de manhã, cada aula parecia mais assustadora que a anterior, quer por ter professores a provar matematicamente que zero é diferente de um, quer por estar pela primeira vez a aventurar-me a sério pelo mundo da programação. O ritmo das aulas era muito mais acelerado do que estava habituada. A quantidade de trabalho autónomo aterrorizava-me. A lista de exercícios que eu não sabia fazer apenas crescia. Não demorou até começar a surgir na minha mente o tradicional pensamento familiar de muitos: “estou no curso errado”. Umas vezes surgia em jeito de piada, outras era bem sério e grave. Passei horas a fim a ouvir a vozinha na minha cabeça a fazer comentários desagradáveis e desencorajadores. E, nos dias mais complicados, estas ideias tomavam conta de mim. Começaram-se a acumular coisas. Era o trabalho, era o peso psicológico, era a saúde mental. E eu, pensando que era tudo normal para quem estava a passar por uma mudança destas, ignorava os sinais e deixava tudo só para mim e o pouco que partilhava vinha sempre vestido de piada.

A primeira lição que retirei deste novo princípio tem precisamente que ver com a necessidade de pararmos um pouco, respirar fundo e percebermos o que o corpo e a mente pedem. Como é que realmente me sinto? Que cansaço é este? Por que é que me sinto tão frustrada? Foram estas perguntas que tentei responder a mim mesma com a maior honestidade possível. Às vezes a resposta não vem em palavras, vem na forma de angústia, lágrimas ou procrastinação. A forma como o nosso corpo e mente nos alerta para prestarmos atenção a nós mesmos muda de pessoa para pessoa. No entanto, mais tarde ou mais cedo, acabamos por nos aperceber que temos de nos ouvir, ou o próprio corpo nos faz parar, deixando-nos doentes, tirando-nos a vontade de fazer até aquilo que gostamos. Portanto, se ainda não o fizeste, tira um momento para te ouvir. 

Existe um facto do qual nos esquecemos com muita facilidade. Por mais que pareça, não fomos atirados aos lobos, nem estamos sozinhos no meio da selva. Logo no primeiro dia, foi-nos atribuído um mentor, um colega mais velho que se voluntariou para nos ajudar. O mentor não existe apenas no dia das inscrições. Ao longo do nosso percurso académico, é alguém com quem podemos contar para esclarecer as dúvidas que tenhamos, alguém com quem partilhar os nossos medos. Geralmente, ao nos voluntariarmos para ser mentores, é porque queremos ajudar os outros e temos disponibilidade para guiar os nossos mentorandos quando precisarem. Não é por obrigação que os mentores tentam manter contacto com os seus mentorandos, pelo menos quando há um verdadeiro sentido de responsabilidade na função. Da minha experiência, nem sempre os mentorandos aproveitam esta ajuda. Compreendo a facilidade que há em deixar essa ligação quebrar, até porque eu mesma cheguei a sentir que estaria a ser chata ao fazer tantas perguntas à minha mentora. No entanto, não estamos a ser chatos. Estamos só perdidos. E o mentor é uma das pessoas que nos pode iluminar o caminho, ou, no mínimo, pode apaziguar o medo.

Outra pessoa que nos é apresentada no dia das inscrições é o tutor. Ficamos um pouco confusos. No meio de tanta informação ainda somos levados para uma reunião com um grupo de pessoas estranhas e um professor que não conhecemos de lado nenhum. Provavelmente, é o nosso primeiro contacto com um professor universitário e já trazemos alguns preconceitos e expectativas de casa. A história mais comum de se ouvir é “só voltei a ver o meu tutor quando tive aulas com ele”. Comentários como este acabam por me causar confusão, especialmente quando verbalizados por alguém que claramente iria beneficiar do apoio do programa de tutorado que o Instituto Superior Técnico nos oferece. O tutor é um professor que disponibilizou o seu próprio tempo para guiar alunos durante os dois primeiros anos do percurso académico. É alguém com ferramentas para ajudar os seus tutorandos com os seus mais variados problemas. O tutor tem um raio de ação muito mais alargado que o mentor, dando conselhos não só do ponto de vista de um professor, como de um adulto que compreende a dificuldade desta transição na nossa vida. Ainda hoje pergunto a mim mesma como e onde eu estaria se não tivesse mandado aquele email ao meu tutor. Aquele momento foi o pontapé de saída para uma melhoria significativa da minha experiência no IST.

O Programa de Tutorado é promovido pelo Núcleo de Desenvolvimento Académico (NDA), um dos núcleos que são paragem obrigatória no dia das inscrições. Talvez na altura esta informação tenha passado ao lado, abafada no meio de tantos outros panfletos e apresentações. Ainda que a sigla fique na cabeça, não fixamos todos os programas e recursos que o NDA tem ao nosso dispor. O que mais me ajudou (e continua a ajudar) foram as reuniões individuais. Este é um espaço onde podemos contar com alguém que nos ouve ativamente e nos ajuda a encontrar um caminho e a desbravar os obstáculos que vamos encontrando. Citando a descrição que se encontra no website do NDA sobre este atendimentos, “os estudantes podem esclarecer qualquer questão que tenham, por exemplo, sobre as prescrições, baixo rendimento académico, planos de estudo, gestão de tarefas, gestão de stress ou qualquer outro assunto que considerem relevante e com impacto no seu rendimento académico”[1]. Quando o meu tutor me encaminhou para o Núcleo de Desenvolvimento Académico, encontrei uma equipa que atua como uma família, pessoas preocupadas em que encontremos o melhor para nós e que se interessam verdadeiramente com o nosso bem-estar e sucesso.   

Por fim, não podemos esquecer a importância de ter um conjunto de amigos que nos apoie. Claro que não é uma regra. É possível fazer todo o percurso sem criar fortes laços. Contudo, a história de que no IST todos competem com todos e os nossos colegas estão sempre à espera de uma oportunidade para nos passar a perna, caso geral, não passa de um mito. Sim, é uma comunidade competitiva, mas a competição pode ser saudável se nos motivar a sermos melhores e a trabalhar. A entreajuda é possível. É reconfortante ter amigos com quem possamos contar não só para formar grupo, partilhar ideias e estudar, mas também para rir ou chorar, dependendo do estado de espírito. Já que vamos passar uma porção das nossas vidas nesta comunidade, que, pelo menos, possamos ir criando boas memórias pelo caminho.

Para concluir, é importante frisar que ninguém vai andar connosco ao colo. Cabe a nós ter a iniciativa de explorar este novo mundo e pedir aconselhamento quando necessário. Mesmo quando estamos a ser ajudados, continua a haver todo um trabalho individual necessário ao nosso sucesso. Não basta nos mostrarem o caminho. Temos nós mesmos de agarrar nas nossas motivações e fazermo-nos ao caminho, agarrar com unhas e dentes a nossa vida e esta oportunidade de estudar. Não estamos sozinhos, existem outras pessoas que, tal como nós, estão a passar ou já passaram por dificuldades. Isto não significa que devemos comparar as nossas batalhas às dos outros. Não é por haver mais gente no campo de batalha que a nossa angústia é menos válida. Significa, sim, que existe uma mão que nos ajuda a erguer se cairmos. Existe uma corda por onde escalar para fora do poço. Só temos de procurar por estas saídas que facilmente nos esquecemos de ter visto no meio da confusão inicial da entrada no Ensino Superior. 

Termino este texto com o mais que gasto trocadilho “insISTe, não desISTas” e com o desejo de que consigas usar as palavras “felicidade”, “alívio” e “Instituto Superior Técnico” na mesma frase. Acredito em ti, acredito que és capaz de ultrapassar as dificuldades. Acredito que tens potencial. Os resultados não são tudo. É o esforço, a dedicação e aquilo que fazes por ti e pelos outros que definem quem és. Os números nas pautas são só uma pequena parte da nossa vida.

Referências:[1] NDA. [Online]. Disponível em: https://nda.tecnico.ulisboa.pt/estudantes/atendimentoscoaching/. [Acedido a 20-Nov-2021].

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