Autoria: Diogo Ribeiro, IST (MEFT)

Fiz há dias uma descoberta arqueológica.

No fundo de uma gaveta, sob uma grossa camada de papéis velhos e poeirentos, encontrei um objecto curioso. De tão pequeno que era, não foi de estranhar que se tenha perdido no meio daquela confusão. Pousei-o na palma da minha mão e, se o objecto pudesse olhar de volta para mim, veria um sorriso nostálgico na minha cara. Era o meu velho Nokia. Poucos centímetros de largura, mais uns tantos de comprimento e com a espessura de uma pequena resma de papel, este pequeno aparelho já foi em tempos a maior espingarda tecnológica que se podia encontrar no mercado. Desde fazer chamadas a enviar émémiésses, este tijolo de bolso fazia tudo o que se podia pedir de um telemóvel… há 15 anos!

Longe vão os tempos em que se ligava para saber onde alguém andava – agora diz-se algo pelo Zap ou manda-se uma Direct message pelo Insta. Se quisermos partilhar fotografias das nossas férias, não é preciso juntar a família à volta de um álbum de fotografias recém reveladas nem enviar uma carta pelo correio, basta colocar no Face ou enviar um mail.

São sinais dos tempos e não há como (nem que) voltar atrás. O desenvolvimento tecnológico e o surgimento de novas tecnologias sempre moldaram os hábitos das sociedades e são parte integrante da maneira como estas evoluem. Basta pensar na invenção da roda ou do betão armado e da maneira como ambas as tecnologias mudaram a visão sobre o transporte e a construção. Não é, no entanto, de um dia para o outro que estas visões do mundo se alteram. As sociedades demoram o seu devido tempo a assimilar as novas possibilidades, acabando por, nesse processo de assimilação, moldar a própria tecnologia e torná-la mais adequada às suas necessidades. Numa época em que o desenvolvimento das tecnologias digitais ocorre a um ritmo vertiginoso, é, para além de interessante, necessário e importante pensar em como esta dinâmica de adaptação ocorre e nos impactos que esta possa vir a ter nas nossas vidas e no desenvolvimento de tecnologias futuras.

Prova desta crescente importância é a recente aprovação da Carta dos Direitos Digitais no parlamento Português. Apesar das controvérsias sobre alguns dos 21 artigos da nova lei e de pecar por tardia, a sua aprovação continua a ser um passo decisivo na tomada de consciência colectiva da crescente digitalização das nossas vidas e na afirmação dos direitos, liberdades e garantias no ciberespaço (citando o respectivo diário da república).

No tempo em que comecei a frequentar o ciberespaço, o acesso era feito por um grande computador que o meu pai, entusiasta das modernas invenções, havia adquirido uns anos antes. Para entrar na “web”, era necessária autorização dele, pois a internet era um sítio perigoso para crianças que na sua inocência, podiam dar por si nos becos escuros do ciberespaço onde os websites vão para morrer. Hoje, maior e vacinado, posso, como praticamente todas as crianças com a idade que eu tinha quando comecei a frequentar a web, aceder à mesma em qualquer lado através do que já não é um Nokia, mas sim um pequeno computador de bolso. O contraste na facilidade de acesso ao mundo online é evidente, assim como o tipo de tarefas que podemos realizar nesse mesmo mundo. Ao passo que, quando pessoas como o meu pai começaram a utilizar a internet, esta servia para aceder ao e-mail e pouco mais, hoje, a panóplia de serviços dos quais podemos usufruir num clique (palavra derivada do som que os botões faziam quando ainda existiam), faz-nos capazes de sobreviver praticamente só com água e net. Contudo, esta libertação digital vem também abrir as portas para uma enorme variedade de esquemas e burlas. Hoje, a internet é perigosa tanto para uma criança que adquire o seu primeiro smartphone como para o recém formado engenheiro informático. Seja pelo crescente número de esquemas de roubo e extorsão, pela disseminação de falsas informações, ou pela crescente visão (mesmo que não assumida) do utilizador como produto, o mundo digital apresenta-se como um ecossistema complexo onde a constante mutação da sua vasta paisagem pode fazer tropeçar o mais experiente utilizador.

A entrada na era digital tráz consigo então uma enorme responsabilidade que cai por cima de quem a usa. Para que quem chega agora ao ciberespaço, o possa frequentar de um modo seguro e que quem já habita este plano semi-abstracto há mais tempo o possa continuar a fazer do mesmo modo. Uma tarefa difícil seguramente, mas a consciencialização colectiva sobre as vantagens e os perigos deste mundo digital é acima de tudo uma tarefa essencial. Tarefa dificultada pela rápida alteração das tendências tecnológicas (talvez mais rápida que a nossa capacidade de assimilação) que gera, entre faixas etárias cada vez mais estreitas, uma espécie de vácuo tecnológico, colocando grupos de idades distintas em regiões diametralmente opostas do cibermundo. É por isso evidente, que a formação, educação e consciencialização não se devem cingir apenas às camadas mais novas mas sim à generalidade dos seus utilizadores. No ciberespaço, somos todos ainda muito novos.

A Carta dos Direitos Digitais fala não só do direito ao acesso mas também do direito ao desenvolvimento de competências no mundo digital sendo que este último jamais poderá ser dado como concluído e deve ser levado a cabo por todos nós no dia-a-dia como utilizadores e criadores das actuais tendências tecnológicas. Com vidas cada vez mais vividas num espaço semi-abstracto, nem todos temos de ser tecnocraques, mas ter noção do terreno por onde navegamos é meio caminho andado para que não seja apenas o terreno a ditar que rota devemos tomar e através da utilização das mais modernas tecnologias, as possamos adaptar aos problemas e realidades actuais.

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