Vale de Gouvinhas

Autoria: Manuel Pinto (LEGI)

O carro escuro passou pelo portão verde da velha casa, uma pequena luz buscava o olhar da grande porta gasta da garagem, lascada pelo tempo, como tudo. Atrás, no carro, dormiam Carlos e Maria, a ondulação das estradas embalava-os no sono confuso dos carros; entre sonos, Carlos assimilava as curvas que já tanto conhecia, sinais que a irmã era demasiado nova para entender. De boina esperava uma figura junto ao primeiro pátio; em vultos fazia abrir a entrada do carro, que tremendo passou embaixo do pinheiro, para onde o dia diria que é a sombra. 

Esta história já foi, é daquelas que ficaram para trás, mas afinal tudo de certa forma assim o é. Aquela grande casa pertence agora a um imigrante francês, mas naquele tempo representava algo terno e labiríntico para Maria e Carlos. Os dois irmãos entraram ainda em sonho na velha casa, Maria vinha no colo do pai; deitaram-se os dois calmos na cama de ferro e dormiram como o seguimento natural da longa viagem.

O dia entrava belo pela janela do quarto, Carlos ainda vestido, dormira como viera. Maria, de costas, mantinha-se no sono. Levantou-se silenciosamente da cama de ferro, fazendo chiar as tábuas de madeira cinzenta que se propagam ao longo da casa. Espreitou o corredor fresco em lusco fusco, todos dormiam ainda. Carlos caminhou em bicos de pés. Na velha casa, da sua frescura, subia uma neblina que surgia no início da sua travessia e se representava serena na sala. Para toda a vida guardou Carlos a memória daquela neblina, apenas algo de outra compreensão poderia formar tal neblina, num silêncio absoluto. Parou à porta da grande sala e ouviu esse mesmo silêncio com calma. Como poderia ele saber todas aquelas coisas que se faziam, não podia, pois não? Afinal nunca sabemos; apesar de tudo Carlos não entendia isso, acreditava portanto que eventualmente todas as peças da sua vida cairiam no seu lugar, formando o puzzle confuso que Era. Para Carlos, àquela sala apegava-se uma mística qualquer, que mesmo sabendo no seu discernimento que dela não se poderia fazer a sala – acreditava nessa mística de qualquer modo; pois no fim das contas, não lhe fazia diferença essa diferença; era como se o mundo todo estivesse para igual para aquela sala, e como se a sala estivesse de igual para o mundo de Carlos, sem violência nem bruteza, apenas com uma delicadeza e com uma luz que trespassava as janelas, como cordas; “como pode a luz ser cordas?” perguntou-se; pode a luz ser tudo o que dizem e por isso pode ser cordas também.

Virou-se e caminhou até à cozinha, deixando-se lá estar durante algum tempo. Viu o sol a subir e a entrar obliquamente pela janela. No fundo do corredor veio um ser, um ser terno; Que “ser” era este? Um ser que como todos os seres, que fica hoje mais incerto e mais diluído; incerteza; “já em pé meu filho?” Carlos acenou com a cabeça e subiu um banco. A mulher afagou-lhe o cabelo, como um ser de ternura, e começou a preparar algo para Carlos. Este observava a mulher de cabelos cinzentos e bandolete, sempre tão penteados, sempre tão vaidosos e prateados. O sol já entrava natural na cozinha. Carlos comeu, e a estranheza da manhã passou a uma alegria de criança. 

O Avô sentado ao lado do longo tronco de pinheiro bravo, calmo e de boina, olhava para ele e ria-se; oh como se ria o avô; no fundo do quintal, montes sem fim surgiam e ressurgiram pelo mundo a fora, e assim eram todas as coisas; como era aquela paisagem tão longa e infinita não interessava, simplesmente o era. Carlos de gatas no chão, batia com pinhas no cimento e recolhia a seu interesse gordos e saborosos pinhões, colocando-os num saco, mas sempre comendo alguns. Raramente enchia o saco antes de se encher a sua barriga. Seu avô ria e ria sem parar das macacadas de Carlos; como ria o avô de cajado encostado ao seu peito. Num canto debaixo das telhas brincava a irmã, junto daquele massivo trator laranja que raramente saía do seu encalço. Com sonoridade fazia as suas bonecas andar e aventurar-se por ruas que não existiam, e por mundos que ainda estavam por existir; mas novamente, a existência não é preocupação das crianças, a existência é preocupação unicamente dos Homens, desses seres de brutalidade, desses seres de existência.

O avô abaixava-se no quintal junto às diferentes coleções de criaturas da terra. Indicava a Carlos o que cada coisa era; mas em Carlos ficou marcado com mais veemência, não as diferentes hortícolas, mas sim a imagem do avô debruçado sobre todas aquelas coisas da sua criação, sobre todas aquelas reflexões; faria Carlos alguma coisa tão bela na sua vida como a horta do avô? Todas as posses, todos os projetos e luxos, poderiam ser trocados pela horta do avô, pelo seu poço, pelo seu trator, pelos seus animais despojados de tristeza. Afinal que importância poderia ter o resto. Carlos entenderia mais tarde que o Homem não liga às magnitudes, que o Homem por vezes poderá olhar para um pomar, e que por momentos haverá naquele pomar mais do que em todas as coisas de que são feitas a sua vida mundana; que por vezes num poço caberão suspiros tão secretos e íntimos, que todos os amores que sentirá na sua vida parecerão brincadeiras – mas isto apenas por um momento, tão tênue, tão passivo: depois os carros voltam pelas suas ruas, e os caminhantes não param mais – a vida toma os seus rumos. Que revolta sentirá Carlos disto, que repugnância sentirá Carlos de todas as partes da sua vida, uma repugnância tão grande, que já sendo um homem, perguntará porque continua a existir, ou mesmo, porque terá ele aparecido em primeiro lugar. A luta, não conhecerá Carlos até mais tarde, luta que como as coisas daquela horta, não estará feita de agouros nem de grandes atos, mas sim: de um mero abrir e fechar olhos, como uma onda calma que bate no extraprumo de uma falésia, vezes sem conta. Essa mesma luta levará a memória de sua avó, que sentada na sala chama pela mãe. E Carlos perguntar-se-á sem entender, onde poderá estar esta mãe, onde caberá esta mãe, este conceito, esta loucura? não poderá caber em lado algum; estas súplicas, estas súplicas sem fim; estes chamamentos por um ser que já não o é, que já não o poderá ser; não, nunca mais; novamente Carlos se perguntará o porquê de o terem trazido aqui, o porquê de tanta viagem e de tanto embalo. Mas como sua avó, não obterá resposta.

Na mesa comiam todos, os pais alegres falavam e riam; como falavam os pais de coisas que Carlos não poderia entender. Mas já nada fica dessas conversas, apenas fica uma postura, uma única postura para com a vida, que deplota de algum ato banal: como uma pequena interjeição, o levantar de um copo, e para sempre Carlos guardava esse estar. No fim de uma grande refeição, sempre chorava seu avô, um Homem tão grande, tão discreto na sua verdade; o seu copo surgia no alto e lá do fundo Carlos notava-lhe os olhos aguados; sua tia dizia, ou acha Carlos que dizia: “deixa-te dessas coisas pai”, mas o avô ignorava qualquer impedimento. Depois o que dizia o avô, já Carlos se esquecera há muito; sua avó levantava-se e sempre trazia sem fim pratos e loiças, sem parar. Nos dias em que se sentava junto do avô e da avó, este falava da sua terra, de gentes cujo tempo deixou ténues e apagadas, mas que por vezes pareciam tão reais como as gentes com quem falava na rua ou no trabalho; mais reais arrisco-me a dizer; a avó na sua postura castiça. Sem se dobrar, dizia coisas que só cabiam pacientes dum manicómio, mas que faziam as gentes rir sem fim; mais tarde lembrou-se Carlos, que foi algo cuja avó nunca deixou, que fazia esse humor parte da sua dignidade e que essa dignidade era talvez a única coisa que trazia ao mundo esperança; que da dignidade de sua avó todas as bondades eram feitas, e todos os males eram enfrentados; que esses mesmos males nunca poderiam sair vitoriosos sobre a dignidade, que essa era a componente principal de que eram dotados os Homens e que lhe permitiam sair erguidos de todas as batalhas – que não haveria Deus nem Diabo, nem doença, nem morte, nem mesmo esquecimento capaz de derrotar a dignidade Humana, que essa era e o Era. E seu avô chorava e sua avó ria, e todos bebiam vinho e comiam; e assim entendeu que os males do mundo, naquele momento nem mesmo aos adultos afetam, e se era momentaneamente feliz; sua mãe rosada olhava apaixonadamente a felicidade dos pais de seu marido, que na verdade não lhe eram nada, mas que pela sua grandeza lhe eram alguma coisa; seu pai engraçado, brincava com as irmãs e bebia esbelto, adotara o sentido de humor da mãe, e enterrava a melancolia de seu pai, profundamente, nas superfícies do dia a dia.

Estarei eu a ser honesto quando conto esta história? Estarei eu a falar a verdade perante Carlos; falo apenas de memórias, pois só estas ficam, pois só estas formam a realidade; pois com estas se forma a matéria que não é bem matéria; pois esta, não se poderá nunca formar com o real, o mundo dos Homens é formado de memórias loucas e confusas, de coisas que não se podem tocar nunca, de coisas enterradas que crepitam e de coisas abertas que se alteram – da mesma forma: se herdam estas memórias, se passam de mão em mão, como se passa algo precioso; memórias delicadas, peculiares, ridículas; e de uma mão para a outra se passam coisas que não podem ser vistas, que não podem ser entendidas por completo; que para a mãe que as passa não passam estas coisas de abstrações, e que para o filho que as recebe não passarão nunca de coisas, até se tornarem abstrações. Assim se propagam os Homens, pela  sua semente e pelas suas memórias. Por isso, de certa forma sou honesto, tão honesto quanto pode um Homem ser, tão honesto quanto a um Homem lhe é permitido, por si mesmo, ser.

Quando a noite espreitava os seres ficavam mais parados, Maria já dormia no sofá, os pais lá fora fumavam discretamente cigarros, o avô cirandava pela quinta, na sua infinitude de tarefas; nunca pode um Homem ser tão ocupado como numa quinta. Carlos sentava-se na sala, que respirava calmamente, e da janela via o sol a descer primeiro laranja e depois roxo, pelos montes abaixo. O que pensava Carlos já não se lembra ele hoje, mas acredita que achava tudo aquilo belo. Tantas paisagens vai ver Carlos depois, paisagens do mundo todo, feitas de matéria que ele conhece, ilustradas em fotografias e mapas que ele entenderá, mas quer acreditar Carlos, que aqueles simples montes, e aquele simples sol, talvez fossem mais belos que toda essas paragens futuras; não entendia Carlos de que eram feitos aqueles adormeceres, e por isso talvez fossem mais belos. Via Carlos a irmã ao seu lado adormecida; no que se tornaria aquela mulher? Sempre tão calada, tão fechada sobre si. Ficará então boa amiga de Carlos, e por não falarem, falarão mais tarde estes irmãos numa linguagem silenciosa, em olhares, em formas de se sentarem numa cadeira, em remexeres do cabelo… daquele silêncio surgirá algo tão peculiar que até a Carlos será difícil de entender; impossível; lembra-se Carlos então de olhar para a irmã e de saber precisamente o que esta pensa; e de nunca sentir isso com outra mulher, por mais que busque. 

Por vezes a vida tem coisas tão estranhas, tão bizarras, que até o mais cético dos homens se esgueira perante algumas trajetórias; por vezes, certos atos surgirão nos lugares mais imprevisíveis e fá-lo-ão rebuscar nos confins da sua mente, de modo a chamar ao entendimento e acalmar a euforia. De modo a aglomerar na sua alma, de maneira a que faça sentido, coisas que de nenhum formato do género podem tomar, e no fim, de modo a continuarmos cegos, dedicaremos essas coisas ao acaso, porque de outra maneira não poderíamos usufruir daquilo que nos mantém coesos; e aí morremos um pouco, algo que naturalmente acontece, dado que por fim morremos de vez, seja esta a tarefa que escolhemos cumprir, ou mesmo outras, feitas de loucura, que escolhemos para nós. Agora deixem-me dormir.

Vale de Gouvinhas

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