Eletronicamente falando: Entrevista a Noiserv

Autoria: Inês Firmino (MEMec) e Pedro Ruas (MEC)

David Santos – ou Noiserv, como é conhecido na música- não é o primeiro músico a sair do Técnico, mas é talvez o que leva mais o Técnico para a música. Ao lado de nomes como B Fachada e Profjam, traz à escola uma herança nova, mas estranhamente familiar.

A sua composição é milimetricamente ajustada, sobrepondo sequencialmente camadas de sons, torna o seu projeto matemático. Dotado de uma rítmica e de uma estética ímpar, é talvez o único Engenheiro Electrotécnico no panorama musical nacional. O Diferencial teve a oportunidade de falar com o Noiserv e perceber quando é que começou a conciliar estes elementos, algo que viria a dar imensos frutos. 

Começando pelos primeiros passos no Técnico, David afirmou que a escolha da faculdade foi algo circunstancial e não necessariamente feita a dedo: “Fiz o meu secundário na [Escola] Filipa de Lencastre e o Técnico sempre foi uma presença ativa para quem anda nesta escola. Depois, como era bom a Matemática e Físico-Química, a Engenharia sempre pairou nas minhas escolhas de percurso. […] Face aos meus gostos pessoais académicos, a Engenharia Eletrotécnica foi a que me pareceu mais adequada na altura.”

Já nesta fase, a música era algo bastante presente na vida de Noiserv. Aliás, a paixão começou a ser fomentada ainda em criança, revela o artista: “Ofereceram-me uma guitarra, e o gosto da música foi crescendo a partir daí. Durante o secundário, cheguei a ter uma espécie de banda com uns amigos. Alugámos um estúdio, que na altura tinha uma bateria incrível, e no fundo fazíamos barulho. […] Já na faculdade, cheguei também a ter uma outra banda, com outros amigos. Chegámos até a renovar um espaço perto de Alfragide e convertê-lo em estúdio.”

Voltando à sua vida académica, David confessa que não se cruzou com o Diferencial, mas chegou a fazer parte da antiga RIST (Rádio Interna do IST), antecessora à, já extinta, Rádio Zero: “Eram emissões simples, passávamos umas músicas numa emissão que apanhava o campus da Alameda e pouco mais; e a música passava numas colunas perto da Cantina Social.” Durante o seu trajeto, mesmo enquanto radialista amador, afirma não ter tido um momento que o fizesse sentir que o seu destino era  investir na música. “Não houve nenhum concerto em que eu pensei: «olha, é isto que eu quero fazer». Acho que foi uma coisa que se foi acumulando. […] Tudo isto foi um período de ebulição, em que as coisas iam acontecendo e eu ia gostando cada vez mais.” No entanto, confessa que o seu tempo na RIST desempenhou um importante papel de conexão entre a vida académica e o que, naquele tempo, pensava ser apenas um hobbie. ”Eu acho que este percurso na rádio criou-me uma ligação musical aqui no Técnico. […] Por sermos uma Secção Autónoma, tínhamos, nos arraiais e festas, uma banca de cerveja, um espaço com DJs, ou, às vezes, até nós passávamos música”. De maneira, que não se recorda do IST apenas como escola, mas como um lugar musical.

Em entrevistas anteriores, Noiserv revelou que antes de se dedicar a 100% à música, estava no ramo da investigação, ao abrigo de uma bolsa da FCT. “A bolsa abordava, de um modo geral, software de acústica de salas. No fundo, havia um emulador, onde se simulava a sala onde se desejaria ter o sistema de som e os isolantes; perante isto, o software permitia saber, com base nas propriedades da sala, onde era a localização ideal para estes equipamentos. Consoante o material das paredes, por exemplo, perceber como o som ficaria o mais constante possível.” Era refém de C++, OPENGL e um pouco de HTML – isto para conseguir simular as reflexões do som, projetar os gráficos e resolver algumas das equações.

Nisto, o músico não esconde que se a carreira musical não tivesse tido o sucesso que eventualmente teve, “a probabilidade de continuar no meio académico era grande”.  Visto que estavam sempre a aparecer novos projetos e bolsas de investigação em que imaginava a trabalhar. “Após a minha licenciatura [de 5 anos], entrei logo na Siemens. Aliás, tive a primeira entrevista antes da apresentação do projeto de final de curso, o que era super normal na altura. No entanto, eventualmente, surgiu a oportunidade da bolsa, o que até acabou por ser melhor para mim: na bolsa, eu trabalhava por objetivos, por isso podia moldar e melhor organizar o meu tempo em função tanto do meu projeto de investigação, como da minha carreira musical – em comparação com o ‘nove às cinco’ que eu tinha na empresa.” Na sua conciliação da investigação com a música chegou a receber apoio do próprio docente responsável: “Tive até a sorte do meu orientador da bolsa na altura me deixar dar concertos às quintas, sextas e sábados, desde que compensasse nos dias seguintes. Curiosamente, chegou a ir a alguns concertos meus, a certa altura.”

Noiserv (Fonte: Vera Marmelo)

Perante um percurso particularmente académico, David afirma que ainda tem incutidas algumas práticas e métodos de pensar da Ciência, na sua atividade artística. Nestas, o artista realça que o Técnico ensinou-o a pensar com outra filosofia de vida: “Este ambiente onde tens muitas cadeiras, muitos projetos, e sempre coisas novas para resolver, fomenta-te um estado constante de tentar resolver desafios. E melhor ainda: em muitas destas cadeiras, não tens apenas uma solução, e isso acaba por te abrir mais o raciocínio.” Fazendo, ainda, um paralelismo com a sua carreira, Noiserv remata o tema: “O Técnico ensina-te a usufruir do caminho que é necessário para se chegar a algum lado, e na música começa-se sempre do zero para se chegar a algum lado. Muitos acham uma seca, mas eu aprendi a desfrutar deste caminho.” Apesar de ter abandonado a sua veia académica há mais de 10 anos, ilustra, entre risos, a presença da sua antiga paixão: Está a fazer uma instalação de sensores de movimento na Lourinhã. “A ideia passa por teres uma pessoa a passar no jardim, e aquilo deteta o movimento e diz uma parte de um poema que foi gravado por aquela comunidade. Toda a parte por detrás desta instalação, a lógica da localização do mecanismo, a hipótese de eu instalar um interruptor, o que isso poderá implicar, tudo isso ainda faz parte de um pensamento muito metódico que está sempre comigo.” Em proximidade direta com a música, incorpora na arte uma maneira de abordar o mundo que é apenas sua, aspecto que naturalmente é íntimo ao seu passado.

Neste mesmo sentido, no mais recente álbum, 7305, o músico decide revisitar os diferentes períodos da sua carreira, fazendo também algumas projeções para o futuro. Reconhece que o ato de buscar inspiração ao passado é um clássico e que por vezes é um conceito exausto, contudo David afirma que esse não foi o caso de 7305.  “A referência não foi propriamente a música, foram os instrumentos que eu usava na altura. […] não ouvir a música e pensar «ah, isto tem dois versos ou três versos», mas mais procurar o que cada faixa conseguia transmitir ao nível de arranjos. Não tentei replicar as canções, mas sim capturar o sentimento que havia nelas e transportar para o dia de hoje. Tentei sobretudo capturar a “cor” que a música tinha na altura que foi gravada, para mim.”

Relativamente à componente preditiva ou “de projeção” do álbum, David conta que “[a faixa] 2027 é muito eletrónica, e eu imagino-me, depois deste disco, fazer um outro projeto bastante mais ‘frito’, mais eletrónico. E portanto, tem essa projeção instrumental.” A última música do LP, é, segundo Noiserv, uma projeção de caráter mais retórico: “a outra projeção que é mais metafórica, [a faixa] 2082, que na verdade, eu como pessoa de 1982, é a projeção para uma música que eu faria quando tivesse 100 anos […] e da letra que eu faria aos 100 anos.”

Por fim, e muito curiosamente, o artista chegou a colaborar com outro entrevistado desta edição, o produtor Paulo Branco, no filme Todos os Sonhos do Mundo. Apesar desta colaboração, feita em bastante bastante proximidade, ambos desconheciam do seu passado em comum. “Ele convidou-me para fazer a banda sonora de um filme de uma cantora francesa da qual a produtora dele estava a ser a produtora do filme. Se eu soubesse que ele era do Técnico, na altura eu teria mandado uma brincadeira qualquer.” Paralelamente, relata que a relação com o músico B Fachada, também ex-aluno do IST, só surgiu depois da faculdade. Ambos os exemplos ilustrando não só o quão ramificados foram todos estes percurso, como também as ligações que um passado criou, mesmo que vendado. 

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