“A arte que um estudante do Técnico procura quando quer libertar a mente dos assuntos académicos não é aquela de criatividade reprimida, sempre sujeita a avaliação numa escala de 0 a 20 e ensopada em expectativa. Quais são os pontos de convergência e de divergência entre um artista e um artISTa?”

Autoria: Carolina Pereira, LEIC (IST)


Como aluna do Instituto Superior Técnico, todos os dias me é requerido que use a criatividade para resolver problemas. Afinal de contas, estudo para ser engenheira. É isso que os engenheiros fazem… arranjam soluções criativas e funcionais. Depois, existe aquela outra criatividade a que o Técnico nos obriga, aquela que põe em prática os nossos conhecimentos como Engenheiros da Vida de Estudante (fica a sugestão para uma nova licenciatura, LEVE). Neste papel, não sei bem em que ramo da arte me situo. Algures entre trapezista e ilusionista, talvez. Quando me perguntam porque é que escolhi vir para o IST estudar Engenharia Informática e de Computadores, costumo responder que escrever um programa não é muito diferente de escrever um livro; e eu adoro escrever. Esta resposta apanha muitos de surpresa. Existe arte em Informática (convido-vos a estudar um algoritmo à vossa escolha e admirar toda a criatividade e estética do mesmo). Existe arte na engenharia. Existe arte na ciência. E o contrário também é verdade. A arte tem muita ciência e muita engenharia. Desde os materiais utilizados à matemática das proporções, ou mesmo a física na dança. Contudo, não é por aí que vou guiar este texto. Haverão muitas oportunidades para enfatizar a relação entre a Arte e a Ciência, um tema que me é igualmente precioso.

Realmente, estes estudos requerem criatividade. Olhemos de novo para o estudante do Técnico que puxa pela cabeça e mete um freio na criatividade, obrigando-a a trabalhar a favor de um projeto, de um teste ou de uma dissertação. Se calhar o freio não chega, é melhor pôr umas palas também, não vá a criatividade  distrair-se ou assustar-se com outras artes que não os estudos. Uma vez arreei mal a criatividade e comecei a ver as variáveis como personagens e as funções como eventos das suas vidas. Provavelmente, não passou de um desesperado pedido de ajuda vindo de um cérebro cansado dessa ilusão de criatividade.

Por isso digo, ISTo não é arte

Parece que estou a contradizer-me, não é? Uma introdução a explorar a importância da criatividade como característica de um engenheiro que se preze, para depois dizer “nada disso”. Não é bem assim.

ISTo não é arte. Ou, pelo menos, não é a arte que procuro quando quero libertar a mente dos assuntos académicos. Não é criatividade livre de responsabilidade, avaliação e ensopada em expectativa. A arte alimenta-se de emoções e visões. Quando olho para um trabalho académico, a primeira emoção que sinto é desespero vindo da visão do prazo de entrega a aproximar-se e do peso daquele resultado na nota final. E a criatividade? Acho extraordinário ler o enunciado de um problema e olhar para a sua solução final. É incrível o processo que leva à solução correta, ver as voltas que nós damos para dissecar o problema. Mas esta é uma criatividade condicionada. Na maior parte das vezes, a solução correta é pouco flexível, acabando por se encaixar num molde ao género de “Primeiro fazem A, depois aplicam B e, no fim, transformam em C”. 

Quero sair desse molde. Quero fazer algo livre. Como se costuma dizer, quero fechar a loja por hoje e entrar noutra onda. Então, visto a pele de escritora, pintora, fotógrafa, o que for que me apeteça, sem ligar a prioridades. Simplesmente sigo o instinto e deixo a criatividade fluir. Existe aqui um detalhe: ao colocar-me nesse papel, posso também colocar de lado a minha pessoa e escolher ser criativa num enquadramento díspar da minha realidade. É por isso que existem os nomes escritor/narrador ou poeta/sujeito poético, ator/personagem. Infelizmente, há quem não consiga distinguir os dois e atribui as características de um ao outro. Então, se eu escrever uma narrativa do ponto de vista de um narrador com ideais A, sujeito-me logo a um julgamento. No dia seguinte, escrevo outra narrativa, desta vez do ponto de vista de um narrador com ideais B e, de repente, ficam as pessoas confusas quanto à minha posição. Esclareço já esta situação: quem tomou posições aqui foram os narradores. Eu limitei-me a emprestar-lhes a escrita para que estes pudessem comunicar. Ora, este detalhe afinal é um dos pilares desta ideia de arte livre. Onde é que no mundo académico e no contexto do Técnico em particular, nos poderíamos dar ao luxo de separar quem somos daquilo que fazemos a um nível tão profundo? Quando fazemos um teste, levamos um cartão que comprova a nossa identidade. Tenho de responder como Carolina Pereira, não posso assinar com Carlos Macieira só porque me apeteceu testar os conhecimentos de ACED do Carlos em vez dos meus, na esperança que o Carlos percebesse melhor a matéria do que eu. 

Tal como existem estes pontos onde a artista e o artISTa divergem, existem outros onde são paralelos e os seus problemas se replicam como num espelho. Posso começar por esta mesma palavra-chave: replicação. Passamos horas a desenvolver uma solução com todo esse mecanismo criativo a fazer rodar o motor do engenheiro-para-ser e vem um colega que nos copia o trabalho. ISTo não é arte. Sobre questões de honra, há um artigo deveras interessante que pode ajudar a desconstruir esta ideia de que o Estudante do Técnico é um santo e que caso não o seja, acaba devorado inteiro pela Justiça (agora fora de brincadeiras, não arrisquem). Chateados com os macacos-de-imitação estudantes, lá vamos nós para o nosso refúgio artístico e eis que damos de caras com uma reprodução não-autorizada daquela fotografia que nos deu tanto prazer capturar e que até envolveu bastante planeamento. Analisamos bem essa cópia, ainda colocamos a hipótese de ser coincidência, mas depressa a refutamos porque tal nível de semelhança só se consegue levando o original como referência ou colocando o tripé no mesmo sítio que o nosso. Isto não é arte. ISTo e isto são frustrações constantes tanto de um artISTa como de um artista. Quem vê a situação do ponto de vista do copiado, também o consegue imaginar na pele de copiador.  Pessoalmente, não me sinto concretizada a fazer algo só porque o vi algures e achei giro imitar. Dá-me muito mais satisfação criar algo que é efetivamente fruto da minha criatividade, contaminada o mínimo possível por terceiros. Mas se há quem se sinta realizado ao ser uma fotocopiadora… devem ter as suas razões. Óbvio que aqui estou a pôr de parte ramos específicos em que o objetivo é mesmo reproduzir algo, como é o caso de Fan Art,  covers de músicas, textos do género pastiche, entre outros. Ainda assim, nestes continua a existir diferenciação entre reprodução e reinterpretação. Temos ainda as chamadas trends ou tendências. Estas modas são uma grande fonte de inspiração para muitos, especialmente para quem pretende ganhar visibilidade e/ou dinheiro através da arte. Ao seguir as tendências, estamos de certa forma a condicionar a nossa criatividade, embora haja muito espaço dentro desta para inovar. A intemporalidade de uma obra é colocada em risco quando mergulhada no caráter passageiro das trends. Mas isto não significa que criar dentro dos moldes do conceito atual de “esteticamente agradável” não seja arte.

Fico com a dúvida se será possível ter sucesso na busca pela arte pura e virgem. Somos bombardeados a toda a hora com imagens, textos, ideias. Ainda que não queiramos, o nosso cérebro guarda essa informação e, mais tarde ou mais cedo, acabará por retomá-la e refleti-la nas nossas próprias projeções artísticas. Seria necessário um completo isolamento por parte do artista, sem ouvir, ler ou ver outras obras. Há histórias sobre músicos que se isolam no estúdio durante semanas sem ouvir qualquer música para que possam criar algo genuíno, evitando o risco de gravar uma batida compassada por algo que tivessem ouvido no passado. Sim, podemos aproximar-nos deste conceito de criatividade virgem. Mas será sempre uma aproximação, tal como o valor de pi. Inevitavelmente, comparei a minha ideia ao valor de pi. Eis um exemplo de como uma aluna ligada à engenharia e ciência vê o mundo. Até neste momento de “desligar dos estudos” acabei por tropeçar na Matemática. 

Expostos estes pensamentos, está na hora de descomplicar e particularizar. O que é que o estudante do Técnico realmente quer com a arte e a criatividade? A resposta pode parecer redutora, mas é a realidade. Não quer mais que um simples escape à rotina. Quer colocar de parte, nem que seja por um minuto, o rigor científico, a análise crítica de dados, os prazos de entrega, as linhas orientadoras, as dores de cabeça e a frustração. ISTo é o que o estudante procura. E nem como numa Tragédia Grega, não conseguimos fugir ao destino e acabamos por impor a nós mesmos o grande rigor com que o IST nos molda a mente. Daí, não me surpreende que realmente haja quem sonhe transformar um integral triplo na próxima Mona Lisa ou um programa em C no próximo Os Lusíadas. ISTo seria arte. Mais que isso, seria um feito histórico. Para terminar, friso a subjetividade com que deve ser interpretada esta expressão que usei quase como verdade universal – ISTo não é arte. Esta expressão surge como resumo da necessidade de fugir do Técnico (metaforicamente falando). Para um equilíbrio saudável nas nossas vidas como estudantes, é preciso criar espaços mentais diferentes, separando o mindset do estudo do mindset de descanso. Há que criar esta rutura, fazendo recurso à arte, por exemplo, ou a qualquer outra atividade que nos dê prazer e refresque a nossa moral e autoestima. Agora que passamos tanto tempo no mesmo espaço físico, nos próximos tempos já numa fase de transição à normalidade, sinto que esta sugestão pode aliviar o desespero com que muitos vivemos. Há que encher os pulmões de determinação e afirmar “ISTo não é arte” enquanto fechamos o trabalho e arrumamos os cadernos, prontos para despir esta magnífica, mas pesada, capa de Aluno da Melhor Escola de Engenharia do País.

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