E de repente, sem aviso prévio, levanta-se o pano de boca. Os espetadores assistem atentamente e em silêncio. As expectativas são altas e recaem sobre a personagem principal: a “ciência”. Esta, porém, nunca tinha desempenhado um papel tão relevante e respeitável aos olhos do público. Debaixo dos holofotes, não pode falhar. Errar é para humanos. Sente-se pressionada a provar que merece os olhares de contemplação que, pela primeira vez, recebe com tamanha intensidade e vigor. A sua performance é o centro das atenções, por isso a representação tem de ser irreprimível. O trabalho desenvolvido ao longo de tantos anos começa a dar frutos. Finalmente, tem a visibilidade mais que justa num palco digno de mostrar aquilo que vale. Mas a verdade é que, por mais vezes que se ensaie, nunca se está preparado para a imprevisibilidade do que aí vem, sobretudo dada a adesão massiva atípica, por parte do público em geral. Ainda que totalmente inesperado, a “ciência”, uma vez mais, não virou as costas ao desafio, como aliás é seu apanágio. Terá o devido reconhecimento e merecida admiração quando a peça chegar ao fim?

Autoria: Joana Silva, MEBiol (IST)

APARTE

Mas chega de falar de teatro (sim, fiquei sem ideias de metáforas para abordar o tema covid-19 de forma diferente. De facto, não se tem falado de outra coisa e urge uma lufada de ar fresco e um descanso da negatividade que caracteriza 99,9% das notícias sobre o estado do país. Dito isto, convido o leitor, sobretudo o mais angustiado com o tema, a perscrutar o resto do artigo. Segue-se uma conversa descontraída com a professora na FMUL e investigadora Sandra Martins e com a estudante de doutoramento Marta Furtado no laboratório da Dra. Maria Carmo-Fonseca do Instituto de Medicina Molecular, que num balanço aos prós e contras da pandemia na investigação científica em Portugal, nos dão uma perspetiva mais otimista sobre o futuro. Antes de passar à entrevista propriamente dita, contextualizo a situação para ficar para a posteridade.)!

Breve enquadramento relativamente aborrecido sobre o nosso inimigo invisível

A realidade que se vive constitui um marco histórico, “a primeira grande crise global depois da II Guerra Mundial, que veio mostrar o poder que a Ciência tem e a necessidade de investir nela” (Elvira Fortunato). 

A covid-19 colocou o mundo em suspenso. Todas as áreas da sociedade, sem exceção, atravessam um período conturbado de grande instabilidade. Os impactos na arte, na cultura, na educação, na política, na economia, não deixaram ninguém indiferente. Afigurou-se uma mudança de paradigma a todos os níveis, como resposta à necessidade emergente e quase súbita de alterar o modo de funcionamento e organização da comunidade, em geral.

No campo da investigação científica, ficou mais que provado que a “necessidade faz o engenho”. 

Perante os desafios impostos pela pandemia, e como forma de dar resposta aos projetos promovidos pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), nasceu um consórcio constituído pelo Instituto Gulbenkian de Ciência, Universidade Nova, Fundação Champalimaud e Instituto de Medicina Molecular. Dada a urgente necessidade de aumentar a eficácia de montagem e rapidez de realização de testes de diagnóstico à covid-19, foi criada uma rede de equipas colaborativas em permanente contacto. As entrevistadas integraram a task force do iMM e salientam que a experiência foi bastante positiva do ponto de vista social, já que movimentou grupos de pessoas das mais diversas áreas de investigação, que habitualmente não trabalham em conjunto. Desta forma, estabeleceram-se novas relações profissionais, que de outra forma não se dariam. “Houve centenas de cientistas, a nível nacional, que se voluntariaram em todos os institutos para realizarem testes diariamente, em prejuízo da sua quarentena”, afirma Marta, realçando o altruísmo e espírito de entreajuda que a comunidade científica demonstrou.

Muitos foram os centros de investigação e laboratórios que tiveram de encerrar, entre os quais o iMM. Relativamente aos efeitos desta paralisação, Sandra acredita que o hiato entre Março e Junho não acarretou consequências graves para os projetos em desenvolvimento. “É evidente o atraso nas investigações. Em termos mais técnicos, perderam-se diferenciações de cento e tal dias, que se traduzem em 4 meses de trabalho. É complicado, mas acho que, no nosso caso em particular, os projetos foram facilmente retomados”.

Questionei: “É verdade que estão habituadas a uma atividade não rotineira, que exige muita resiliência e uma grande flexibilidade a nível de horários. Com a necessidade de readaptação às novas condições de trabalho, como foi gerir a vida familiar com a profissional? Quais foram os maiores desafios encontrados no dia a dia do laboratório?” 

Sandra: Bem, a gestão da vida familiar no período do confinamento não foi particularmente difícil, porque a única pessoa que saía para trabalhar era eu. O meu filho não tinha aulas e o meu marido esteve em lay off, portanto estavam ambos em casa. Na task force tínhamos turnos de 4 horas, o país estava praticamente parado, não havia trânsito e o tempo das deslocações reduziu consideravelmente. Tudo aquilo que não era trabalho de laboratório acabava por ser feito em casa, o que facilitou bastante a coordenação com a vida pessoal. Desse ponto de vista, até foi mais simples essa gestão do que é a gestão normal do meu dia a dia. 

Marta: Um aspeto que piorou desde então foi o atraso das encomendas dos materiais que são imprescindíveis para trabalhar. Antes do covid, por norma os reagentes, luvas, pipetas demoravam duas semanas a chegar. Agora estamos meses e meses à espera e nada… 

Marta acrescenta ainda que o maior desafio terá sido gerir a lotação e os espaços na retoma ao trabalho, aquando da reabertura do instituto. “Primeiro tínhamos de conciliar a task force com os laboratórios de investigação, mas o problema era existir um limite de um terço das pessoas a trabalhar ao mesmo tempo. Aí foi mais difícil, porque tínhamos de planear tudo antecipadamente e ao pormenor, gerir os horários de modo a que não estivessem mais de x pessoas a utilizar determinado espaço. Se alguma coisa corresse mal, por exemplo, na cultura de células, já não era possível respeitar o horário delineado, e acabávamos por atrasar o trabalho dos investigadores que vinham a seguir”.

Questionei: “Consideram que a comunidade científica se soube adaptar?”

Sandra: Eu acho que isso é talvez uma das grandes características de quem faz ciência: ser bastante flexível e adaptado. A comunidade científica deu uma boa resposta, no geral, a esmagadora maioria dos grandes institutos científicos montaram testes de diagnóstico num tempo record por pessoas que nunca tinham trabalho em determinado tipo de abordagens e tecnologias. Houve também uma aproximação da comunidade médica que não faz ciência aos cientistas, na tentativa de procurar respostas. Muitas vezes, há algum distanciamento entre clínicos que não desenvolvem atividade de investigação e os investigadores, e nesse aspecto, houve uma grande coordenação entre as duas partes, o que foi muito positivo!

Continuámos a conversa abordando questões mais relacionadas com o impacto financeiro da pandemia na ciência do nosso país. Perguntei o seguinte: “Já se sentem dificuldades a nível do financiamento dos projetos, dos subsídios e bolsas de estudo? Acham que este cenário poderá colocar em risco uma nova geração de investigadores em início de carreira que veem assim a sobrevivência dos seus projetos, ou mesmo o seu início, em causa?”.

Sandra: Eu penso que a grande maioria das entidades financiadoras, nomeadamente a FCT, tiveram noção do impacto da necessidade da paragem e, portanto, os prazos da maior parte dos projetos e bolsas terão sido alargados. Claro que recomeçar demora sempre mais tempo do que continuar algo que está a decorrer, e isso pode atrasar alguns projetos e o trabalho de alguns alunos de mestrado, doutoramento, sobretudo aquele tipo de projetos que são mais curtos e onde o tempo é sempre uma limitação. Mas não acredito que comprometa uma geração futura. Diria que, a ser afetado, será pelo impacto geral económico que todas as áreas vão sentir. Agora em particular, acho que não.

É sabido que o apoio do Estado no que toca ao financiamento e disponibilização de meios que possibilitem uma investigação de qualidade no nosso país fica muito aquém do necessário, comparando com aquilo que se faz lá fora. Mais do que nunca, é fundamental que se proteja e promova a continuidade de empreendimento científico. Dito isto, interroguei o seguinte: “Dada a conjuntura atual, acham que será necessário um apelo ao governo, ou mesmo exigência, por parte de toda a comunidade científica, para que não sejam esquecidas as investigações que procuram dar diariamente respostas a outros problemas e doenças, como por exemplo o cancro?”

Sandra: É difícil conseguir prever qual é que vai ser o impacto do redirecionamento de fundos científicos para investigação covid relativamente aos outros projetos em geral. Quando os primeiros resultados dos projetos da FCT saírem, talvez já consigamos ter uma maior noção disso. Eu estou convicta de que as consequências não vão ser dramáticas, portanto acho que vai haver uma alocação maior de fundos para que se consiga direcionar esse dinheiro também para a covid, sem prejuízo para as restantes áreas científicas. Mas vamos ter que esperar para ver, ainda é precoce. 

Marta: A verdade é que se tivermos uma grande crise a nível económico, certamente que vai haver menos dinheiro a ser alocado à ciência, e provavelmente menos projetos terão financiamento. Mas naturalmente existirão cientistas a revoltar-se contra isso e a dizer “Não, quando foi preciso nós estivemos lá e demos muito ao país, e portanto, não podem desinvestir na ciência”. 

Por fim, coloquei a última questão: “Não só os médicos, bombeiros, enfermeiros, profissionais de saúde estão nesta altura na linha da frente da pandemia. Os investigadores continuam, de facto, no centro da solução. Dada essa constatação óbvia, acham que toda esta situação veio despertar a consciência da grande maioria da população para a importância da evolução da ciência? Ou seja, acham que a pandemia contribuiu, de certa forma, para que mais pessoas comecem a valorizar a investigação científica em Portugal?”

Sandra: Sem dúvida. Se houve algo de positivo nesta crise para a comunidade científica foi exatamente a chamada de atenção e o despertar da população em geral para o facto de que, afinal, estes bichinhos de laboratório que passam horas atrás de uma bancada não andam só a brincar aos tubinhos e a fazer experiências que não interessam para coisa nenhuma. A sociedade passou a ter noção da importância real que é continuar a fazer investigação e do potencial da comunidade científica. Esse reconhecimento foi claro e poderá até ser benéfico do ponto de vista do financiamento para a ciência.

Marta: As pessoas passaram a prestar muito mais atenção e a atribuir maior importância aos investigadores e à utilidade do seu trabalho para a sociedade. Provavelmente, também se aperceberam melhor da dificuldade que está por detrás de todas estas investigações e do quão demorado é descobrir novas terapêuticas, novas vacinas. No geral, acho que houve uma consciencialização por parte da população para a necessidade de haver investimento na ciência, e eu acho que isso é extremamente positivo.

FIM DO APARTE

A peça terminou e a “ciência” recebeu uma ovação de pé pela plateia em êxtase.

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