O coletivo ativista ambientalista Climáximo dinamizou, no passado sábado dia 22 de maio, uma ação de desobediência civil em massa no Aeroporto de Lisboa denominada Em Chamas. Diogo Silva, assessor de impressa da ação, disponibilizou-se para nos responder a algumas perguntas.

Autoria: João Gonçalves, MEFT (IST)

J – Quais são as reivindicações da ação de desobediência civil de dia 22 de maio no Aeroporto de Lisboa?

D – Manifestamo-nos por menos aviões, mais ferrovia e uma transição justa para os trabalhadores. Em cada um destes pilares, há reivindicações concretas, nomeadamente:

Menos aviões: proibição imediata da construção de novos aeroportos, proibição imediata de voos domésticos em Portugal continental, obrigação de taxa média de ocupação ficar acima dos 90%.

Mais ferrovia: nos próximos três anos, ligar por ferrovia todas as capitais de distrito e electrificar toda a ferrovia nacional com electricidade 100% renovável.

Transição Justa: formação profissional em Empregos para o Clima (antes de empresas de aviação fecharem, garantir formação paga por essas empresas no sector da mobilidade sustentável), garantia e prioridade a estas pessoas nos Empregos para o Clima (empregos públicos e dignos que terão que ser criados para uma economia sustentável: como ferrovia, energias renováveis ou florestas), e garantia de um rendimento de transição (rendimento garantido durante dois anos ao nível em que eram remunerados anteriormente no sector da aviação).


J – Porquê a escolha destas reivindicações? Que consequências positivas viriam do seu cumprimento?

D – A nossa casa está a arder. Temos menos de dez anos para cortar em três quartos as emissões nacionais (ver: https://glasgowagreement.net/pt/inventories/portugal/). Manter a expansão da aviação é como ligar o fogão numa casa a arder. Temos que apagar o fogo e só com menos aviões, mais ferrovia e uma transição justa para os trabalhadores poderemos apagar o fogo de forma justa.


J – Consideram as reivindicações realistas?

D – Sim. As reivindicações são o que é necessário fazer, o que a Ciência e justiça social nos dizem que é necessário. Irrealista é achar que o único caminho é o que já está a ser feito, no qual as primeiras pessoas com falta de ar são as últimas a ser salvas, e estamos a caminhar a passos largos para o colapso social por ficarmos sem as condições básicas de vida na terra. Outro mundo é possível.


J – Em que consistirá a ação em si?

D – Vamos concentrar-nos no terminal de chegadas do Aeroporto de Lisboa e seguir até à Rotunda do Relógio, para a bloquearmos com os nossos corpos.


J – Que efeito esperam alcançar com esta ação, quer do ponto de vista de sensibilização da população como de legislação?

D – Não podemos associar o impacto esperado a uma única ação. Consideramo-nos parte de um movimento pela justiça climática que luta há décadas por um planeta habitável e uma sociedade justa. Fazemos esta ação porque nos vai colocar mais perto de atingir o que reivindicamos no concreto agora (menos aviões, mais ferrovia, transição justa) e o que temos reivindicado enquanto movimento: travar a crise climática antes de 1.5ºC de aquecimento face à era pré-industrial e fazê-lo de uma forma justa.


J – Sentem que a desobediência civil tem trazido benefícios concretos na luta pela justiça climática? Se sim, em que sentido?

D – A desobediência civil é uma ferramenta antiga: foi essencial na luta das sufragistas pelo voto das mulheres no início do séc. XX, dos direitos civis nos EUA nos anos 60, na luta anti-apartheid, nos movimentos de descolonização e até no nosso país no movimento de resistência anti-fascista.

Já houve três ações de desobediência civil em massa em Portugal: o Camp-in-gás em Julho de 2019 contra os furos de gás, o bloqueio da Av. Almirante Reis pela justiça climática em Setembro desse ano, e a ação Anti-Corpos que bloqueou o Marquês de Pombal em Outubro do ano passado. Em 2015 havia 15 contratos de exploração de petróleo e gás e em 2019 o Governo ainda dizia que o gás fazia parte dos planos, em 2020 todos os contratos tinham sido cancelados. No início de 2019 o Governo dizia que não era possível fechar centrais a carvão porque o país ficava às escuras, no discurso de vitória das eleições o mesmo Governo PS disse que as ia fechar nesta legislatura, e em 2020 anunciaram que o fariam até este ano. No início de 2019 havia um consenso à volta da necessidade de um novo aeroporto e de ser no Montijo, neste momento esse consenso não existe.

Não podemos atribuir estas vitórias exclusivamente à desobediência civil ou sequer exclusivamente ao movimento pela justiça climática. Mas estou certo de que sem um movimento pela justiça climática forte, e sem ações de desobediência civil, tudo o resto não tinha sido suficiente para as vitórias que já conseguimos.


J – O que é que as pessoas preocupadas com a justiça climática podem fazer para ajudar este movimento?

D – A casa está a arder. Se não estás a apagar o fogo, estás a deixá-lo arder e consumir a casa. Estamos todas dentro da mesma casa. A única tarefa responsável é fazermos parte do movimento que está a apagar o fogo, tudo o resto não será suficiente. Temos tudo por fazer e toda a oportunidade de o fazermos: basta juntarem-se a uma reunião introdutória de uma organização do movimento (como o Climáximo ou a Greve Climática Estudantil) e trabalho não falta, porque estamos a perder. O fogo continua a alastrar e temos que continuar a reinventar-nos para o apagarmos.


J – Que mais ações, deste tipo ou de outros, prevêem nos próximos tempos?

D – Ainda não temos nada concreto marcado, mas vamos de certeza voltar no Outono deste ano. Enquanto a casa estiver a arder, enquanto não ganharmos, tudo é ensaio.

Agradecemos ao Diogo e a toda a equipa do Climáximo pela disponibilidade para esta entrevista. Se tiveres interesse neste coletivo, visita o site do Climáximo e envolve-te!

Comentários

A distância entre Madrid e Saragoça é maior do que aquela que separa Lisboa do Porto. Alguém quer saber se a OUIGO praticará o preço promocional de 9Eur, numa viagem de comboio inferior a 2 horas, numa ferrovia de bitola ibérica?
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