Autoria: Beatriz Costa, LEFT

Um estudante deslocado é aquele que se movimenta com o objetivo de prosseguir os seus estudos num local diferente da sua cidade natal. Trata-se de um processo enriquecedor, mas acompanhado de (muitos) inconvenientes.

Após acabado o secundário, os estudantes estão perante uma nova etapa do seu percurso educativo: a universidade. Embora muitos alunos tenham já em mente uma determinada instituição, o processo de escolha desta pode ser demorado e difícil para muitos. Este texto é sobre nós, os deslocados, em particular sobre mim, uma deslocada com uma história para contar.

Quando acabei o secundário, sabia que a próxima etapa seria a universidade. Cresci a ouvir dizer que, para arranjarmos emprego neste país, temos de ter uma licenciatura e um mestrado. Embora nunca tivesse tido grande interesse em trabalhar neste país, pelo sim pelo não, decidi que talvez fosse melhor entrar no ensino superior. Curiosamente, parte dos maiores empresários mundiais não terminaram o seu curso: ou tiveram a sorte de nascer em berço de ouro e construir o império com esse ponto de partida ou então apostaram tudo, trabalho, tempo, dedicação e dinheiro, numa boa ideia. Devo acrescentar que também deixei de parte a possibilidade de fazer uma pausa sabática, pois, sendo o meu pai um homem do século passado que achava que eu ia desistir dos estudos e a minha mãe uma intrincada workaholic, nenhum deles compreendeu o conceito de parar um ano para descansar e fazer um autorreconhecimento antes de entrar na universidade. 

Depois, veio talvez a parte mais difícil do processo: a escolha do curso. Tive, novamente, um entrave, pois os meus pais são médicos: um é defensor acérrimo de que medicina é a mais prestigiada das profissões e a outra acha que esta está pela hora da morte. Neste ponto, tive de seguir o conselho da minha mãe e destruir o sonho de menino do meu pai. Portanto, um curso foi posto de parte, restam cerca de 999 cursos dos cerca de 1000 disponíveis. Talvez seja mais fácil olhar para isto por áreas, então, lá fui eu, uma a uma, analisando: saúde… Gosto de animais, podia ser veterinária, mas não fiz o exame de biologia, próximo; artes… Não é o meu estilo, próximo; comunicação social… Não gosto de estar nem à frente, nem atrás das câmaras, próximo; letras e humanidades…  Gosto de ler, gosto de escrever, adoro aprender novas línguas e acho que tenho uma boa capacidade de organização e expressão de ideias… esperem, esqueci-me que ninguém quer que eu siga essa área porque acreditam que depois vou para o desemprego. Bom, restam-me as engenharias. Além de ser uma área abrangente, toda a gente me diz que eu sou muito inteligente, indispensável à comunidade científica e gosto de física e química (nota: após dois anos no técnico eu apercebi-me de que isto é uma grandessíssima falácia). Está semi-decido, já só resta um tópico (está quase, aguentem caros leitores que vai valer a pena): para onde vou? 

Sempre tive a sorte de poder viajar, tanto com a minha família, como com a minha escola secundária e, como tal, cedo aprendi a reconhecer a importância de aprender com outras culturas e a sair da minha zona de conforto. Além disso, o Reino Unido, e em especial Londres, sempre me fascinou. País escrito pelas penas de Shakespeare, investigado pela lupa de Sherlock Holmes e cantado pela voz dos Beatles, esse mítico sítio multicultural acolhe inúmeros estudantes anualmente provenientes dos quatro cantos do mundo. Contudo, aliado ao fenómeno Brexit, à versão inglesa das famosas student loans e, a cereja no topo do bolo, à minha incerteza relativa à escolha do curso, fui incapaz de me submeter a mim e aos meus pais ao fardo de estar a estudar numa universidade no estrangeiro, sem perceber exatamente se era aquilo que queria para o meu futuro. Tenho sonhos, mas não sou inconsciente: o estrangeiro pode e vai ter de esperar. Posta esta hipótese de parte, escolhi a cidade portuguesa que mais se aproxima de Londres, Lisboa (é quase o mesmo, só mudam umas quantas letras). 

Preocupada com a minha educação, obviamente que queria escolher aquela que era considerada como uma das melhores universidades públicas de engenharia: o IST. Neste ponto, é importante frisar um comportamento que eu costumo descrever como um certo comodismo com o qual eu não me identifico. Na minha opinião, quando escolhemos as várias universidades, devemos selecionar aquelas que nos garantam uma melhor aprendizagem e que nos realizem enquanto estudantes e não apenas aquelas que estejam mais próximas dos sítios em que vivemos. Evidentemente que nem todos temos as mesmas possibilidades financeiras e educativas e, infelizmente, ainda são muitos aqueles que têm de abdicar das suas universidades de sonho devido a uma diferença centesimal de notas, dificuldades económicas ou ainda devido aos custos das cidades em causa, mas isso é um assunto que será abordado mais adiante. Muitos alunos selecionam a universidade em vez de selecionarem o curso o que é ridiculamente recorrente em Lisboa onde muitos alunos privilegiam os cursos da UL ou da NOVA por estarem mais perto de casa em vez de escolherem o mesmo curso noutras universidades como a FEUP ou a UM. Diria mesmo que a quantidade de lisboetas que não conhecem universidades e cursos fora de Lisboa é alarmante. Ao contrário do que muitos possam pensar neste momento, não pretendo, de algum modo, enxovalhar os olissiponenses, até porque, enquanto vimaranense, tenho de explicar recorrentemente que o IST, embora tenha a palavra “instituto” e “técnico” não é nem uma universidade privada, nem pertence a nenhum politécnico de Lisboa. O que estou a tentar explicar é que se fosse comodista e se não procurasse alternativas abaixo do rio Douro este texto não existiria, bem como parte do meu cansaço, desalento, mas também capacidade de desembaraço.

Estava tomada a minha decisão!

Antes de conhecer a realidade do IST foi-me dito que, muito provavelmente, não me ia relacionar com os lisboetas, só com os chamados “provincianos”. Felizmente, tal não aconteceu, pois a nossa proveniência foi absolutamente indiferente para a construção de novas amizades. Lisboa acolheu-me de braços abertos e desde o primeiro dia senti-me mais alfacinha que vimaranense. 

Lembro-me das primeiras vezes que cheguei a Santa-Apolónia e do lindo céu à saída da estação. Banhado pelos últimos raios dourados do sol da tarde, o azul convertia-se na cor da esperança, da motivação e de um novo começo na minha vida. Após a minha quinquagésima viagem (mais coisa menos coisa) a estação, o azul, o Sol perdeu o seu total e completo significado. Adoro o entusiasmo das pessoas quando expressam o seu gosto pelas viagens de comboio. “Ah, as lindas paisagens portuguesas!”, exclamam, “A tranquilidade das viagens de comboio.”, comentam. O meu lado turístico concorda, mas não nos esqueçamos que eu sou estudante. Em vez das “lindas paisagens” vejo as lindas páginas dos livros que os professores recomendam para conseguirmos tirar boas notas. As equações matemáticas presentes nessas lindas páginas são tão descabidas, tão entediantes e tão desinteressantes que o meu organismo tem tendência a escolher sempre uma de duas opções: ficar maldisposto ou adormecer. 

Numa fase inicial, eu tentava contrariar a má disposição, encharcando-me em comprimidos anti enjoo, em adição a outros narcóticos e mezinhas, dos quais muitos têm um efeito secundário curioso que é a sonolência. Farta do desconforto dos assentos e do seu exíguo espaço para acomodar pernas, malas, mochilas e casacos, farta da pequena mesinha na qual mal cabia um caderno, quanto mais livros, estojo e computador e farta da má disposição provocada pelo movimento pendular, rendi-me a sestas de quatro horas. Muitos questionam-se se não serão horas a mais a dormir: quem é estudante no técnico sabe que todo o sono é pouco. 

A parte misteriosa das viagens de comboio de quatro horas é que estas não são apenas viagens de comboio de quatro horas! O quê? Como assim? As viagens de comboio de quatro horas são, na verdade, viagens de todos os meios de transporte de cerca de um dia inteiro! Incrível! Passo a explicar: antes da viagem de comboio, é preciso, primeiro, fazer a mala de 20kg com tudo e mais alguma coisa com roupa, comida, roupa de casa e uma catrefada de livros. Depois, como o caquético presidente da câmara de Guimarães não se interessa minimamente pelos deslocados, menospreza a estação de comboio e deixámos de ter acesso à linha rápida do Alpha Pendular (isto também é bastante irrelevante, porque o TGV português de rápido não tem nada). Conclusão, tenho de fazer uma viagem de carro ou de comboio até à estação de Braga. Finalmente, chegado o comboio a Lisboa, falta só mesmo apanhar o autocarro, metro ou táxi para chegar finalmente a casa. Tão fácil, tão eficiente, tão tranquilo…

Na ida para casa, olho pela janela do táxi e apercebo-me de que há um rasgo de natureza que sobressalta no meio da selva de prédios e betão. Lisboa, tal como todas as outras grandes cidades só tem um tipo de ave: o pombo. Em todo o lado, lá estão eles, com os seus olhares inquiridores, as suas penas sebosas e desarranjadas e as suas patas toscas. Metem-se no meio das estradas, nas ruas e esperam implacavelmente que acabemos de comer nas esplanadas para depois atacarem os nossos restos. Pombos e pombos e mais pombos e ocasionalmente uma gaivota que se junta à festa da insalubridade.

    Chegada à entrada do meu prédio, após a minha demanda, resta só subir dois lanços de escadas com todas as minhas tralhas. Então porque não subir de elevador? Porque eu adoro dar cabo das minhas costas, braços e pernas, porque desta forma posso fazer exercício físico e, sobretudo, porque não há elevador nos prédios antigos de Lisboa… Passo a passo, degrau a degrau e consigo chegar ao segundo andar. 

    Estou, por fim, em casa, ou melhor, em “casa”. Abro a porta e sou brindada pela agradável luz branca artificial que contrasta com a luz do exterior, mas, sobre isso nada sei, pois os dois quartos que ainda não estão alugados mantêm-se fechados à chave e os três quartos que já estão alugados, também. Em Lisboa não se alugam casas nem apartamentos, em Lisboa alugam-se quartos. Não apenas a estudantes. Portugal é um país pobre comparado com outros países da EU, mas Lisboa está ao mesmo preço que as grandes capitais europeias. Viver num cubículo tornou-se um luxo o que, para pais de estudantes, é obviamente difícil de sustentar. O problema poderia ser colmatado com residências universitárias acessíveis a todos, mas estas são escassas e, quando existem, estão, no mínimo, a meia hora de transportes públicos da universidade em causa. Os jovens são o futuro da nação, mas ninguém se lembra das nossas necessidades básicas.  

    De volta ao relato, a minha casa tem espaço para seis pessoas, mas só lá estamos três. Eu, um rapaz imerso no mundo dos videojogos e um rapaz que simpaticamente gosto de descrever como distante. Cresci, à semelhança de tantos outros, com os filmes americanos, muitos dos quais retratam a vida universitária recheada de festas diárias em casas de estudantes. Estava tão iludida. Nos primeiros tempos de caloira, o entusiamo superava todos os aspetos negativos, mas com o passar do tempo, o meu cansaço, saudade e até mesmo desespero foram crescendo. É importante sublinhar que fui aquilo a que gosto de chamar “caloira COVID” [1] o que significa que se a vida no primeiro ano no IST já era difícil, esta foi agravada pelo vírus. Visto que estava quase tudo fechado ou com imposição de restrições (bares, restaurantes, discotecas, etc.), restavam-nos poucas opções além de conviver o máximo possível no IST e depois ir para casa, isto quando era a nossa semana presencial e não online. Além disso, os professores abusavam de nós tanto quanto podiam e esqueciam-se de que havia alturas em que passávamos dias inteiros a olhar para ecrãs, o que dá cabo dos olhos, cabeça e até da sanidade mental de uma pessoa. Os dias iam passando, a pandemia agravava-se, o trabalho requerido e a dificuldade das matérias iam aumentando e o único percurso que fazia era casa-universidade, universidade-casa. Curiosa e ironicamente, sentia-me mais em casa ao ir para a universidade: quando estava em casa estava inevitavelmente a estudar no computador e só podia ver os meus novos amigos praticamente na universidade. Além disso, quando chegava a casa era, no máximo, brindada com um “Olá, Bea, tudo bem?” seguido de o som de uma porta a fechar-se. Isto, obviamente, num bom dia, pois, num mau dia, seria meramente ignorada pelo meu colega rude que se passeava pela casa com cabeças de escovas de dentes, também chamadas de AirPods, enfiadas nos ouvidos. Parece que não, mas isto dá cabo da autoestima de uma pessoa. Depois de um dia esgotante, aquilo que qualquer um de nós gostaria de fazer seria, evidentemente, relaxar no conforto do seu lar e poder desabafar com aqueles de quem mais gosta. Já levei com comentários do tipo “Se não gostas do sítio onde estás, só tens de mudar de casa!” ou “Arranja um animal de estimação! Vais ver que te sentes muito melhor!”. Relativamente à mudança de casa, acho que ficou mais do que claro que, em Lisboa, não há casas a preços acessíveis. No que toca ao segundo comentário, este só revela o desconhecimento por parte dos não deslocados da enorme responsabilidade associada aos cuidados de um animal absolutamente incompatível com os horários em constante alteração dos alunos deslocados.  

Voltando à história, as viagens dão alguma fome. Vou ao frigorífico e à dispensa e apercebo-me de que não há comida. Geralmente, quando vivemos em casa dos nossos pais, temos menos liberdade e autonomia, mas, em contrapartida, há algumas responsabilidades e necessidades básicas que nos ficam automaticamente garantidas. De facto, aquilo que as pessoas que vivem em casa dos pais mais invejam é a possibilidade de podermos fazer a nossa vida livremente sem termos de estar constantemente a avisar os nossos parentes. Além disso, não temos horas de regresso a casa e não temos regras a não ser aquelas que nos impõe o senhorio. Todavia, temos de nos lembrar de tudo no que toca a lidas da casa e pagamentos. Somos responsáveis pelo pagamento da renda, água, luz, gás e outros aspetos e é uma enorme aflição quando nos esquecemos de pagar alguma destas coisas ou quando, no final do mês, a conta é superior ao valor que esperávamos. Aprendemos a valorizar aqueles que cozinham em nossa casa, pois cozinhar envolve um ritual, uma espécie de receita que tem de ser seguida: primeiro temos de ir às compras e, para tal, temos de fazer um levantamento dos supermercados mais próximos, de modo a que não tenhamos de andar uma grande distância carregados. Temos ainda de tomar atenção à quantidade de produtos que trazemos para não nos sobrecarregarmos. Em caso de extrema necessidade, a melhor decisão é fazer as compras por turnos. Depois de compras feitas, temos de pensar no que fazer, todos os dias, pelo menos uma vez por dia, o que se pode tornar exaustante. Seguidamente, vem a parte de cozinhar. Se se gostar ou se se for bom a fazer este passo, então a realização deste não custa nada. Se não tivermos grande experiência ou não gostarmos, então temos de improvisar, aceitar que a comida nunca ficará tão boa como esperamos e procurar melhorar. Finalmente, há que lavar e secar todos os utensílios. Neste ponto, apercebemo-nos da quantidade de material, por vezes desnecessário, que gastámos para confecionar a comida. Ainda que moroso, este processo às vezes, mas só às vezes, permite-nos afastar a nossa mente das horas infindáveis de estudo. Novamente, adoro o facto das universidades se esquecerem das pessoas deslocadas e fecharem as cantinas aos fins-de-semana. Poderiam facilitar as refeições a inúmeras pessoas, visto que muitos vivem próximo da universidade, mas às vezes parece que estas instituições só atuam de maneira a complicar a vida dos alunos. Adicionalmente a toda esta preparação, temos de limpar, arrumar a casa e, em alguns casos, incluindo o meu, levar botijas escada acima, caso contrário vivemos como os pombos na sujidade e desorganização e tomamos banho de água fria. 

Bom, suponho que só me resta ir para o meu quarto e trabalhar um bocado antes que as tarefas se acumulem demasiado. À medida que o tempo ia passando, as aulas ficavam sucessivamente mais aborrecidas, a matéria mais complicada e a pandemia estava muito longe de terminar, visto que no início de 2021 entrámos unicamente em regime online. Apesar de já ter feito amigos na universidade, a sensação de não poder estar com eles diariamente era terrível e, embora conseguíssemos dialogar recorrendo a aparelhos tecnológicos e videoconferências, nada substituía a presença deles. Como resultado da falta do aconchego do lar, da distância dos amigos e do meu crescente desinteresse pelas aulas, caí numa profunda solidão. No entanto, nunca cheguei a estar verdadeiramente sozinha. Isto é, não tinha propriamente ninguém contra mim. A minha família incentivava os meus estudos e aconselhava-me em tudo o que podia e os meus amigos falavam comigo frequentemente. Contudo e, citando Camões, era “um andar solitário entre a gente” e era como se estivesse contra mim própria. Nada fazia sentido: eu tinha uma média razoável, passara a todas as cadeiras, de uma maneira geral, integrara-me bem na universidade. Então, o que é que me estava a mandar abaixo? O medo do contágio? O facto de não poder sair com os meus amigos? As saudades de casa? Talvez tudo isso ou talvez nada disso… 

Modéstia à parte, eu entrei num dos cursos com melhor média e, como seria de esperar, todos os meus colegas caloiros eram trabalhadores e inteligentes. Sendo o meu subconsciente um dos meus maiores inimigos, sobretudo em momentos de ansiedade, este levava-me a crer que não era boa o suficiente para aguentar o curso e a sentir-me sozinha, pois passava imenso tempo a questionar-me se os meus colegas estariam a ter os mesmos problemas de adaptação. Cada vez estava mais desmotivada e convencida de que a universidade, bem como a vida em Lisboa, estavam gradualmente a perder o seu propósito e encanto. As paredes brancas do meu quarto, onde outrora pensara pendurar posters e desenhos, começaram a tornar-se paranoicamente repetitivas para a minha vista. O meu quarto, de repente, tornou-se num sítio húmido e frio, onde a luz do sol nunca parecia chegar em quantidade suficiente. As noites eram tristes e o silêncio nos dias, entre aquelas quatro paredes constantes, era absolutamente ensurdecedor. Tentava quebrá-lo ligando para casa, mas nem eu nem a minha família podíamos estar recorrentemente a fazer chamadas telefónicas. Além disso, comecei a ficar com medo de telefonar, pois temia ser um estorvo para os meus pais e não os queria deixar preocupados. Acabei por entrar num círculo vicioso: de dia, andava sempre exausta e só queria dormir, de noite, não conseguia dormir por causa da ansiedade e de pesadelos. Apetecia-me chorar e dormir constantemente. Tive de procurar ajuda para começar a combater a solidão, bem como aquilo que a minha família temia ser uma pequena depressão. Estava na altura de perceber o que se passava e de pedir ajuda. 

Com a ajuda das pessoas certas, consegui controlar os meus pensamentos, bem como as minhas emoções mais fortes e consertei os maus ciclos de sono. Obviamente, este processo não aconteceu repentinamente, mas, a seu tempo, os meus problemas foram esmorecendo. Entretanto, as restrições foram sendo progressivamente levantadas e os diversos cursos foram regressando ao técnico, quanto mais não fosse para realizar os exames finais. Adicionalmente, recebemos uma nova inquilina vinda do Brasil, a qual trouxe consigo uma nova visão do mundo e coloriu a nossa casa de novas cores, a qual estava há muito mergulhada em tons escuros. Finalmente, nos meus últimos dias de caloira, a esperança renasceu e, eventualmente, as férias grandes iriam acalmar os ânimos de todos nós e poderíamos recarregar as nossas baterias.

Resumindo: ser-se deslocada não é exatamente aquilo que se vê nas comédias americanas dos anos noventa e este texto procurou sublinhar alguns desses aspetos negativos, de forma a alertar algumas mentes mais fechadas das dificuldades que somos obrigados a encarar. Evidentemente, existe um lado positivo em ser-se deslocado. Viver fora de casa em período de universidade é uma valiosa prática para a futura vida laboral e permite-nos amadurecer o nosso pensamento, aprender a viver em comunidade, testar a agilidade dos nossos horários e gerir as lidas da casa. Além disso, aprendemos a valorizar a nossa vida familiar e não há nada mais reconfortante do que voltar para casa, à nossa verdadeira casa, depois de uma viagem longa de comboio. Enfiar os pés nas pantufas, tirar o casaco, cachecol e gorro, sentir o calor da lareira, ou do ar condicionado no meu caso, e abraçar a família depois de algumas semanas fora de casa é das melhores sensações que os não deslocados não podem experienciar.

    Volto à cozinha e sou recebida com o sorriso da minha nova colega de casa. Também ela está num país novo e também ela tem os seus problemas.  Ela, agradavelmente, oferece-me um café e uma fatia de bolo. Agora mais animada, sento-me e comemos, rimos e discutimos as diferenças entre Portugal e o Brasil. De repente, volto a ver o azul do céu e raios de Sol pela janela da cozinha. O mundo tornou-se ligeiramente mais caloroso e o tempo parecia eterno, pois não há nada mais simples e relaxante do que discutir a diferença entre um ananás e um abacaxi.


Referências:

[1] Diferencial – Duas vezes caloira [Acedido pela última vez a 13/04/2022]

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